quinta-feira, novembro 11, 2010

CARTA AO MINISTRO DA EDUCAÇÃO

“Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais.”

Eis a resposta dos principais autores de livros infantis deste país. Foi publicada no dia 4 de novembro. A Academia Brasileira de Letras (ABL) já tinha reagido e divulgado o seu mais categórico repúdio à decisão de vetar As Caçadas de Pedrinho, livro de José Bento Renato Monteiro Lobato.

Depois foi a vez de Ana Maria Machado, Bartolomeu Campos de Queirós, Lygia Bojunga, Pedro Bandeira, Ruth Rocha e Ziraldo, que começaram um abaixo-assinado (trecho acima) contra a decisão do Conselho Nacional de Educação de tirar o livro de circulação. Há algumas semanas, leitores, estudantes, professores, artistas e intelectuais discutem o caso e tentam enxergar o conteúdo racista e ofensivo que o Conselho afirma existir na obra.

Um deles até enviou uma carta ao próprio ministro da educação. Num texto vibrante e inspirado, ele argumenta em defesa do criador do Sítio do Picapau Amarelo:

“Na época do seu José Bento, senhor ministro (com quem convivi na intimidade e de quem posso escrever e falar com pleno conhecimento de causa), inexistiam esses excessos do politicamente correto que, convenhamos, produzem situações deveras cômicas hoje em dia.”

Sujeito de autoridade, ele também aborda as diversas causas abraçadas por Lobato, relembrando, ainda, o seu espírito empreendedor e humanista. Lobato defendeu a exploração do petróleo brasileiro pelos brasileiros e combateu o descaso dos governantes em relação ao homem do campo. Agudo, seu defensor emprega um raciocínio multidisciplinar para lançar luz nas verdadeiras origens do preconceito no Brasil e no mundo. Repare na transcrição abaixo em que ele chega ao clímax da sua dissertação, opondo com maestria os pensamentos daqueles que acreditam no Livro da Gênesis e dos que apóiam a Teoria da Evolução das Espécies.

“Foram os Criacionistas que inventaram o racismo e a escravidão. Cavaram seus argumentos na Bíblia para fundamentar a existência de uma linhagem inferior sobre a face da Terra, os filhos de Cam, netos de Noé (que um belo dia, tendo Deus como avalista, jogou a famigerada maldição sobre toda a Canaã e originou as tais raças inferiores que, naturalmente, não mereciam o reconhecimento da humanidade). Ora, o seu José Bento sempre foi um libertário. Ninguém o conheceu melhor do que eu! Toda a sua obra, infantil e adulta, é Evolucionista e, portanto, antirracista.”

Visconde de Sabugosa, renomado intelectual brasileiro, assim arremata o raciocínio:

“De acordo com Charles Darwin, todos os habitantes humanos do Sítio descendem do macaco.”


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Crônica publicada no jornal Folha do Norte (jornal impresso de Bandeirantes, Paraná, Ano III, Edição 165 de 23/11/2010), no site Lençóis Notícias e no blogue Avassaladoras Rio. Todos os direitos reservados. A ilustração acima é de Voltolino, artista plástico que ilustrou as primeiras edições dos livros infantis de Lobato. 

domingo, outubro 17, 2010

"ABESTADOS" GRAÇAS A DEUS?

Palhaço Tiririca, estadista brasileiro, dá a receita: “Eu 'num' sei ainda, 'mais vô discubri' quando 'tiver' lá 'drento'”. 1,3 milhões de eleitores igualmente risíveis.

Caso eu fosse o presidente da Academia Brasileira de Letras, mandava instalar um “display” de contagem regressiva, o Idiotômetro, bem na fachada do Petit Trianon. 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 e... TOP! TOP! TOP! Um analfabeto a mais no poder.

Então, divulgou-se o Prêmio Nobel de Literatura 2010. Vargas Llosa. Peruano e prosador dos melhores.

Quantos brasileiros? Nenhum. E o Saramago? Quem?! O Saramago! Ele não ganhou o Nobel de Literatura? Infelizmente, tive que ouvir tal aberração de um conterrâneo meu (ora, se ele não fosse paranaense, mas paulista, teria votado no Tiririca). Saramago o quê, perguntei descrente e, minutos depois, mais descrente ainda, tive que ouvir a seguinte pérola do mesmo sujeito: “Agora eu sou contra o aborto porque a Dilma também é”.

Pausa reflexiva na crônica (tema musical recomendado para acompanhar a leitura: “Sangrando” de Gonzaguinha). Somos brasileiros, meu chapa, tão orgulhosos da nossa democracia reconquistada às custas de incontáveis mártires e valas comuns, que chegamos ao refinamento de aceitarmos legisladores analfabetos.

E o Saramago? Escreveu heresias geniais e faturou o prêmio que nenhum autor de língua portuguesa tinha faturado antes. Quanto ao Nobel 2010, trata-se da décima primeira vez que um autor de língua espanhola recebe a distinção. Já entre os latino-americanos, Llosa é o sexto, precedido pelos escritores Gabriela Mistral (Chile, 1945), Miguel Ángel Asturias (Guatemala, 1967), Pablo Neruda (Chile, 1971), Gabriel García Márquez (Colômbia, 1982) e Octavio Paz (México, 1990).

E o Saramago?

Saramago era português. Português?! Sim, português... Burraldo! Claro, para não brigar, falei “burraldo” em silêncio, de mim para comigo. Então, era isto: aquela parte do diálogo que eu costumo chamar de “A raposa e as uvas” tinha chegado. “Pra quê ganhar o Nobel de Literatura se Deus é brasileiro e não desiste nunca da democracia?” O pior estava por vir: as eleições. O Datena e a magnífica imprensa policial brasileira é que estão certos: chamam isso de “desinteligência entre as partes”.

Fé, ignorância e politicagem barata no lugar de propostas. A campanha decepciona. Diversos comentaristas previram que as eleições 2010 seriam marcadas pelo uso da Internet. Bobagem. Uma vez mais, quiseram aproximar a gente dos gringos. Ora, dizer que rolaria um papo-cabeça via banda larga! Está certo: foi uma tentativa. Só faltou um detalhe. Tentem de novo em dezembro, meninos, época das previsões de Ano Novo. E o detalhe é que o brasileiro esculhamba a Internet. Esculhambamos o E-mail, o Orkut, o Blogger e, agora, esculhambamos o Twitter. Obama e concorrentes “twittaram” suas propostas. Aqui, foi a contenda Taliban versus Aborto que invadiu a rede: Serra e Dilma de joelhos como dois garotinhos. Uma pergunta: o Ficha Limpa é uma espécie de curetagem nacional?!

Porre. O mesmo sujeito recontou aquela história do Beethoven. “E se tivessem abortado o Saramago?!”, desafiei. “Nenhum autor de língua portuguesa teria o Prêmio Nobel de Literatura até hoje!”

E o Paulo Coelho?

Em situações como a que vivi naquele dia, o silêncio e o caminho de casa são a melhor escolha.


André Luiz Ferrer Domenciano é farmacêutico e escritor. Membro da ALCAB, Academia de Letras Ciências e Artes de Bandeirantes (PR). Semanalmente, publica sua crônica no blogue AVASSALADORAS RIO , no site LENÇÓIS NOTÍCIAS e no site BRASILWIKI. Todos os direitos reservados.

terça-feira, setembro 07, 2010

UM POUCO MAIS LIVRE

O termo liberdade só faz sentido pontualmente na vida de uma pessoa jovem ou de um país jovem. Interpretar e fazer uso indiscriminado de tão abstrato substantivo pode ser perigoso. Trata-se de uma questão delicada até mesmo no que se refere a precisar a idade em que terminam as distorções. Mario Benedetti, prosador e poeta uruguaio, dá uma pista nos versos do poema Quiero creer que estoy volviendo:

todos estamos rotos pero enteros
diezmados por perdones y resabios
un poco más gastados y más sabios
más viejos y sinceros

Toda vez que o feriado da Independência chega, um desses jogos de associação muito particulares leva-me a pensar em sebos, melancolia latino-americana e cinquentonas. A palavra liberdade ressoa dentro de mim. Fico desconfiado; há lugares comuns demais nos discursos do dia 7. Nas ruas e nos palanques, na TV aberta ou fechada, nos bares e salões - enfim, na timbalada moral e cínica que anima a efeméride -, o vocábulo mais pronunciado e festejado é, para mim, um gatilho de recordações e alertas.

Em Santa Catarina, onde estudei Farmácia no final dos 1990, as passagens de ônibus para o Norte do Paraná constituíam um luxo semestral. Eu viajava pouco para casa e, na iminência de um feriadão, procurava distração barata nos sebos e brechós literários de Itajaí e Balneário Camboriú.

Aliás, foi assim que autores como Benedetti, pouco publicados e conhecidos no Brasil - é claro, se comparados a outros latino-americanos como Borges, Márquez e Llosa - entraram na minha vida de estudante. Um verdadeiro tesouro que argentinos, paraguaios e uruguaios enterram anualmente, em pleno Verão, nas prateleiras dos brechós catarinenses.

Em um deles, instalado em Balneário Camboriú, a proprietária puxava conversa e dava palpites. Ela fazia questionamentos e, muitas vezes, extrapolava, tornando-se invasiva. Teimosa, a cinquentona implicava até mesmo com a minha assiduidade.

Nas primeiras visitas, eu fiquei em dúvida se era dona do lugar. A mulher debatia. Ironizava as minhas escolhas. Dava menor importância ao lucro do que ao fato de um rapaz como eu preferir velhos livros à praia ensolarada.

Mesmo no inverno, quando a enseada fica cinzenta e toda a orla abandonada, ela demonstrava ironia e indignação. Jovem combina com ar livre e movimento! Entre agosto e setembro, meses em que o tempo começa a esquentar, a mulher descarregava o sarcasmo: Jovem combina com praia, prancha de surf e... liberdade! Mas foi diferente, posso garantir, na manhã em que descobri Benedetti na prateleira: Geografías, livro de contos e poesias em Espanhol, no original, publicados em 1984 pela Editora Nueva Imagem de Buenos Aires.

A literatura de Mario Benedetti é uma comovente denúncia. Ele mesmo sentiu na pele a marca da sua época; os terríveis acontecimentos políticos que, na segunda metade do Século XX, extirparam direitos em toda a América Latina.

Diante da minha escolha, a mulher ficou quieta. Mera distração? Conhecimento de causa? A cinquentona teria ficado un poco más gastada y más sabia? Nunca descobri.

De qualquer maneira, Geografías de Mario Benedetti me transformou naquele momento. Em plena Avenida Central, sentia-me um pouco mais livre. O peso de ser um jovem apaixonado pela leitura incomodava menos.



André Luiz Ferrer Domenciano é farmacêutico e escritor. Membro da ALCAB, Academia de Letras Ciências e Artes de Bandeirantes (PR). Semanalmente, publica sua crônica no blogue AVASSALADORAS RIO , no site LENÇÓIS NOTÍCIAS e no site BRASILWIKI. Todos os direitos reservados.

domingo, setembro 05, 2010

APRENDA A ESCREVER UM ARTIGO DISSERTATIVO CURTO OU UMA CRÔNICA DISSERTATIVA

O tipo de texto que pode ser produzido através desta técnica é dissertativo. Tenho empregado este procedimento sempre que preciso escrever um artigo pequeno ou crônica dissertativa e disponho apenas de algumas horas. A estrutura da pirâmide invertida, muito usada nas redações de jornais escritos (papel e internet), agiliza bastante o trabalho e impede que o texto fique muito grande e com excesso de informação. Preste atenção na estrutura, estabeleça o tamanho do texto (em número de caracteres) e siga os dez passos da construção.



I Estrutura


Título (Idéia Principal);

Linha fina (Explicação ou complemento do título);

Parágrafo de introdução (Quem? O quê? Como? Quando? Onde? Por quê?);

Pirâmide invertida (Informações mais relevantes primeiro, menos relevantes depois);

Ponto de corte (Considerar o tamanho do texto de 2300 caracteres e proceder com o “corte” o quanto mais abaixo possível na pirâmide invertida; este procedimento evitará que o texto se prolongue demais ou que o encurtamento do texto até o tamanho ideal prejudique o conteúdo – lembre-se, na pirâmide invertida, os fatos mais relevantes sempre estão no topo, logo depois da introdução, que não sofre o corte; logo abaixo do ponto de corte, encaixa-se a conclusão);

Conclusão (Parágrafo curto que confirma, reitera, o por quê da introdução).



II Roteiro de trabalho


1 Lista das dez informações mais releventes;

2 Agrupamento das dez informações em conjuntos coordenados cada um por uma idéia; num texto, lembre-se de que duas ou três ideias coordenadoras bastam; tem-se, no final, dois ou três conjuntos de informações;

3 Escrita do parágrafo introdutório (tese) que responde diretamente as perguntas Quem? O quê? Como? Quando? Onde? e Por quê?

4 Escrita da conclusão, que reitera diretamente o por quê apresentado na introdução;

5 Voltar à lista das dez informações mais relevantes que, agora, serão ordenadas em ordem de importância;

6 Desenvolver as idéias em parágrafos-padrão, inserindo as informações em ordem decescente de relevância e, a um só tempo, já nos dois parágrafos do topo, conduzindo e preparando o leitor para a conclusão;

7 Escrever o título, que deve apresentar a idéia principal de maneira direta e, se possível, atraente, instigante, impactante;

8 Escrever a linha fina, cujo objetivo é auxiliar o título no processo de sedução do leitor, explicando e completando o título, aproximando-o da ideia principal;

9 Volte à pirâmide invertida e, de baixo para cima, considerando o número total de caracteres desejado (inclusive título, linha fina e créditos), encontrar o ponto de corte;

10 Monte o texto, encaixando a pirâmide invertida entre a introdução e a conclusão; no alto, coloque o título e, abaixo, os créditos; revise a ortografia.



III Observação


Como se trata de uma dissertação, é claro, o texto possui todos os elementos da modalide: a apresentação do ponto de vista a ser defendido já no primeiro parágrafo (introdução), o desenvolvimento da argumentação (defesa fundamentada) e a reafirmação do ponto de vista (conclusão).

Na escrita, o uso de métodos é muito pessoal. Esta técnica é um caminho que encontrei para resolver o problema de tempo e espaço. Também tem sido útil para mim como estímulo da geração de ideias e das relações entre as ideias de maneira rápida. Outras pessoas poderão empregá-lo da mesma forma ou como ponto de partida para o descobrimento da própria técnica.

JOHN TRAVOLTA E OS EMBALOS DO SPA HOLYWOODIANO

Ele trai a esposa há vários anos com homens, diz a revista National Enquirer

A publicação apresenta o autor Robert Randolph como fonte. Segundo a Enquirer, Randolph entrega o astro de “Pulp Fiction” no seu livro “You'll Never Spa in this Town Again” (Você nunca voltará a um spa nesta cidade). John Travolta (56) é casado com Kelly Preston (47), que está grávida de um menino.

Ilustração de André Ferrer 2010

sábado, agosto 28, 2010

TRÊS IDADES DA ALMA DA GENTE


DESCRIÇÃO

Casa, riacho, cisnes. Um gatinho que golpeava rolos de lã.

Para variar, a professora recortou uma revista, emoldurou a imagem com cartolina e pendurou a família no quadro negro. A melhor atividade de uma semana repleta do abominável arme-e-efetue. O negócio mais atraente que eu fazia com letras depois de ter conseguido juntá-las mais ou menos bem chamava-se descrição.

Imagem: O GATO E O NOVELO DE LÃ, obra de Macé Marinho

A descrição da família universal. Pai, filho, mãe, filha. Nunca o “n” antes do “p”. “Usa-se 'm' antes do 'p' e do 'b' menino!” Frases curtas. Frases na ordem direta. Desconhecemos, ainda, o rebuscamento. Sujeito. Predicado. Nome de quem se diz e o quê é dito daquele nome. Exemplo: Vovô é mineiro. A minha mãe é metade espanhola. Titio toca violão e bateria. Uma vida inteira, de fato, para que se retorne a um estilo tão sóbrio e honesto como aquele. Muitos jamais conseguem.

Letra, meia volta, palavra, volta inteira, frase, nó, texto, carreira, tecido. A descrição é o que vem primeiro. As pessoas, os objetos e a natureza eternamente congelados em óleo, aquarela, sais de prata ou grafite sobre o papel. Na descrição há predominância dos verbos de ligação. Movimento nenhum atrapalha a simplicidade. Por exemplo: Vovô morreu cedo. Ele era o papai da mamãe. O papai do meu pai é mineiro. Ele tem um banquinho azul. À tardinha, na janela dos fundos da casa, ele canta “Felicidade foi embora e a saldade...”

Na terceira ou quarta séries, uma descoberta impressionante: quando uma transformação aparece entre duas descrições é hora de o tempo entrar na jogada, temos imagem em movimento, desenho animado, cinema!
 
 
 
NARRAÇÃO

José Domiciano e Noêmia vieram das Minas Gerais na década de 1950. Fizeram escala em Bragança Paulista e São Paulo antes de chegarem ao Norte do Paraná.

Meus avós paternos tinham formado a família nos arredores de Pouso Alegre. João, Maria Imaculada, Maria José e Paulo, meu pai, nasceram numa cidadezinha chamada Borda da Mata, numa região montanhosa onde a Serra da Mantiqueira se faz presente, ditando as características do clima e da bela paisagem. Estiva, perto dali, cidade onde a minha avó Noêmia nasceu, é a maior produtora de morangos do país.

Imagem: aspecto de Borda da Mata, foto de Silvana Araújo

Meu avô José foi delegado de polícia em Borda da Mata. Naquela época, os delegados do interior podiam ser qualquer cidadão nomeado. Chamava-se de “calças-curtas” esse tipo de funcionário. Por quatro ou cinco anos, quando os filhos eram crianças, José Domiciano exerceu esse cargo naquela modesta comunidade. Depois, atraído pelos relatos vindos do Sul, parentes a amigos que haviam se mudado para São Paulo e Paraná transmitiam, a família se mudou.

Em São Paulo e Bragança, José Domiciano trabalhou no comércio de alimentos, frutas e verduras, primeiro, e depois refeições. Ele e a minha avó tocaram resteurantes em Bragança e, depois, no Paraná. O bar e restaurante dos Domiciano, em Bandeirantes, funcionou no cruzamento das atuais Rua Prefeito Moacyr Cartanho e Avenida Comendador Luís Meneghel, no prédio onde depois funcionou a distribuidora de bebidas Brahma da família Cravo.

Como todo bom comerciante vindo de fora, o meu avô gostava de contar histórias. Contava os causos tão próprios do mineiro com um toque adicional de nostalgia dos imigrantes. Lembro-me, por exemplo, de vê-lo na cozinha, sentado num banco azul celeste, ou então na janela da mesma cozinha, que olhava para o quintal da sua casa na atual Avenida Edelina Meneghel Rando. Quando eu nasci, meus pais moravam numa casa no mesmo terreno. Vivi naquele quintal cimentado, sob os olhos do meu avô, até os quatro anos. Ele mostrava o rosto lá em cima. Tinha barba e cabelos completamente grisalhos, dizem, desde os trinta e poucos anos. Ele surgia. Quase sempre cantando Felicidade do Lupicínio Rodrigues. Tinha um jeito de olhar para os fundos do quintal que, anos depois, descobri ser o jeito mineiro de procurar a coerência, a regularidade, a planura que as ondulações e os mil obstáculos do relevo (da vida) proporcionam. Tal descoberta me impressionou tanto, que cheguei a escrever uma crônica sobre a capacidade que os mineiros desenvolvem de enxergar os terrenos planos através das montanhas. A capacidade de “tramontar” as dificuldades que obliteram os sonhos; de acreditar na existência de melhores e mais seguros lugares; de ter coragem e transpor fisicamente a cadeia montanhosa.

Nascido em 1910, o meu avô paterno passou o resto da sua vida em Bandeirantes. Era o Zé da Cabeça Branca. Tinha um bar instalado na frente da sua residência na Edelina.

Não conheci os meus bisavós paternos. Muito natural. A maioria das pessoas apenas conhecem os galhos mais grossos, o tronco e as raízes da sua sua árvore genealógica mediante relatos. A partir dos bisavós, tudo parece nublado, misterioso, mágico.

Do lado materno, aconteceu-me de conhecer duas bisavós e de não conhecer o meu avô espanhol. Foi a minha avó, Maria Benedita, a responsável pela transmissão das histórias que me impressionaram na infância e adolescência. O nome de solteira da minha avó era Maria Benedita Leite Meira. Seu pai, meu bisavô, pertencia a uma rica família paulista, que tinha terras na Região Sul de São Paulo. Na virada dos séculos XIX e XX, muitos proprietários de terras paulistas avançaram através da fronteira paranaense à procura das terras roxas, muito boas para o cultivo do café. Meu bisavô esteve na região de Bandeirantes e Andirá no início do Século XX. Segundo a minha avó, ele caçava no exato local onde hoje se localiza o centro da cidade de Andirá. Manuel Leite Meira faleceu de malária em torno dos quarenta anos de idade. A doença era muito comum nas matas norte-paranaenses.

Com o nome mudado para Maria Benedita Ferrer Palomares, a minha avó teve quatro filhos, Neuza, Claudete, que é a minha mãe, Bernadete e Antônio Carlos. Anos atrás, tinha chegado a Bandeirantes, vinda de Cambará, onde morava na famosa Fazenda Água do Bugre. Ela então conheceu um espanhol, meu avô materno que, segundo a visão da época, “trazia sempre o macacão sujo pelo trabalho”, critério dos mais importantes para que uma moça escolhesse o noivo.

Antônio Ferrer Palomares nasceu em Deifontes, um município da Espanha localizado na província de Granada, comunidade autônoma da Andaluzia. Seus pais, Antônio Ferrer Moreno e Angelina Ferrer Palomares, vieram definitivamente para o Brasil quando ele tinha seis anos de idade. Além dele, nasceram Assunción, ainda na Espanha, Ricardo, Paulo e Elza, no Brasil. Antes de se casar, o meu bisavô trabalhou nos Estados Unidos, Cuba e Brasil onde conheceu Angelina, que tinha vindo da Espanha para São Paulo. Depois do noivado, os dois voltaram para a Europa num tempo em que as noivas espanholas vestiam negro. No dia do casamento, muitas pessoas deixaram suas casas movidas pela curiosidade: queriam ver a noiva que se casaria de branco.

Imagem: Paisagem nevada de Deifontes, Ayuntamiento de Deifontes, Província de Granada, Espanha

O meu bisavô espanhol era serralheiro. Chegou a Bandeirantes com a sua família na década de 1940. Trabalhou na instalação da empresa Açúcar e Álcool Bandeirantes. Foi proprietário de uma oficina de serralheria que, depois de se aposentar, deixou para os filhos. Abriu, então, um comércio de frutas e verduras. A serralheria dos Ferrer Palomares empregou jovens que se tornariam grandes profissionais do ramo. Infelizmente, meu bisavô espanhol faleceu muito antes de que eu pudesse conhecê-lo. Nasci em 1973. Pude, entretanto, conhecer a bisavó Angelina.

Mulher vigorosa e muito disposta com fios e agulhas. Lembro-me de uma temporada que ela passou em casa. Foi antes do meu ingresso na escola. Menino rabiscador. Vivia projetanto e construindo brinquedos com papel velho, tesoura rombuda e qualquer material rejeitado. Fazia brinquedos estranhos naquela época, meio verdadeiros, meio inventados. Aberrações, com certeza, mas que, para mim, eram objetos eficientes. Lembro-me de um deles, uma carrocinha de rodas imaginárias puxada por um cavalinho branco, que não sai da minha memória por causa da hóspede e do grau de dificuldade com a qual se apresentou a consumação do projeto. Ninguém me ajudava. Todos preocupados com a visita. Criei coragem. Nas mãos, uma caixa de fósforos vazia, um cavalinho de plástico e um barbante. A mulher entendeu. Apanhou a caixinha e providenciou dois furos para o barbante. Foi dessa vez que eu aprendi a construir um nó simples. Átomo da indústria têxtil. Com centenas de laçadas assim, bem apertadinhas, a vovó Angelina tecia uma respeitável mantilha andaluz. Passei o dia com a carrocinha nas mãos. Ela tricotou a soma dos nós. O universo, as tramas e os brinquedinhos de rodas imaginárias têm nós como matéria fundamental. Incontáveis laçadas que, no final do dia, originaram a textura esperada.

Imagem: Um dos vários arabescos do Alhambra (Forte Vermelho), Granada, Espanha

A outra bisavó materna, Maria Marcolina de Jesus Leite Meira tinha descendência alemã e portuguesa. Era uma mulher baixinha e franzina, que criou os filhos sozinha depois da morte do bisavô Manuel. Quando a minha mãe tinha compromisso sempre me deixava na casa dela, uma casa simples, de madeira, localizada na atual Rua Prefeito José Mário Junqueira e construída num grande terreno sem calçamento. Apenas um caminho de tijolos cercado de sempre-vivas ligava a porta da sala ao portão. Foi Marcolina que me ensinou a tomar café puro e forte, “desde criança faz muito bem à saúde!”; ficávamos a espera da minha mãe; eu sempre queria colher uma sempre-viva que, para mim, chamava-se “jojóia”, um nome que inventei para aquelas inquietantes e estranhas flores eternas. Marcolina morava com a minha tia-avó Anália, exímia costureira.

Um dos relatos que mais me impressionaram na infância envolve a bisavó Marcolina. Quando jovem, ela cruzava as terras da família sozinha, montada num cavalo, para transportar a comida dos homens. As minhas ideias a respeito de cowboys, cavaleiros vingadores e amazonas de farwest não combinavam com a imagem frágil da minha bisavó pois, raramente, ela se aventurava além da sua “trilha de jojóias”.
 
 
DISSERTAÇÃO

A procura de planuras além das montanhas. O sentimento de não pertencer a “este” lugar. A inexplicável perda de referências não-possuídas. Eis a tônica da minha personalidade que, durante os anos de autodescoberta, intrigou-me por vezes de maneira terrível. Hoje, na idade da dissertação, quando a vida também já se revelou bastante capaz de se tornar obscura, sei que cada uma das minhas percepções passa por esse filtro.

A cidade é bonita. Bonita e a um só tempo feia. Por quê? Ah! Sim. Os porquês e as justificativas dominam a vida na idade da dissertação.

Imagem: canavial em chamas, fonte www.econews.com.br

Um domingo desses, eu acordei cedinho pensando na janela alta do meu avô José; pensei tembém nas manhãs, tardes e noites que vivi ao lado da minha avó Maria. Quantas histórias ela me contou! Sei muito bem agora: todas elas filtradas pelo sentimento e pela vivência de uma pessoa que há muito deixara a descrição, a narração simples e descrevia, narrava e dissertava, sim, julgando, julgando-se e argumentando ao mesmo tempo. Idade avançadíssima de dissertação. Cheguei imediatamente à conclusão de que a minha paixão por escrever – cada vez mais encarada como ofício – nada mais é do que a minha maneira de transpor as montanhas, os oceanos e os anos que me separam de uma ou várias terras originais. Busca passional, mas que precisa se despojar do sentimentalismo para que se transforme em texto coerente, coeso e real. Para que a trama dos causos, a padronagem de Alhambra, o museu dos mosaicos de Granada, enfim, todos aqueles fios unidos pelo balé das agulhas tomem um formato digno de ser chamado de conto, crônica ou ensaio.

Naquele domingo, eu desejei escrever com afinco até a hora do almoço, mas o dia estava lindo. Em Bandeirantes, os melhores dias têm imaginárias manhãs azuis. Você só precisa olhar para o céu e jamais abaixar a cabeça enquanto imagina.

“Vou sair para procurar, aqui mesmo, alguma terra distante”, pensei. Exercer o mistério de uma busca ancestral inacabada para todo o sempre. Além dos extensos canaviais em horizontes incandescentes, as chaminés lançam e relançam uma fumaça leve e pesada para o meio ambiente. Canavieiros também trabalham aos domingos! Ferem os olhos azuis do dia com a fumaça que vem da máquina econômica – única responsável por todo e qualquer movimento local? Por causa do negro fumo, nem toda a água boricada do mundo bastará. Lado negativo. Positivo. Sejamos honestos. A minha vontade é mesmo inimiga de qualquer ufanismo. Preciso anotar a beleza de um rosto verdadeiro e jamais camuflar as profundas marcas deixadas pela varíola.

Logo ali, no alto da Comendador, um cisco incomoda os olhos nos olhos da manhã que jamais terminam em literatura de qualidade, terminam, e não se pode negar, exatamente como a própria manhã: injetados de sangue. Ao longo da tarde, a fração mais densa da fuligem precipita sob a forma de pequenos caracóis de carvão. Negras volutas que, na sua existência minúscula, fazem todos os tipos de peripécias. Invadem os grandes poros da cidade. Imiscuem-se nas fibras da roupa que seca no varal. Causam sinusite, asma brônquica, sangramentos respiratórios e, a médio e longo prazo, cânceres dos mais diversos, inoportunos ou não, eleitoreiros ou não, que, a curtíssimo prazo, oneram o Sistema Único de Saúde.

A procura de planuras além das montanhas. O sentimento de não pertencer a “este” lugar. A misteriosa perda de referências não-possuídas. Eis o motivo da minha irritação criativa. O desafio. O estímulo que me faz enxergar a beleza e o progresso atrás de verdades físicas inquestionáveis. E há tão pouco espaço para esperanças! A idade da dissertação é assim mesmo, cheia de cicatrizes, ressentimentos e vontade de ser honesto uma vez na vida com a alma da gente.



André Luiz Ferrer Domenciano é farmacêutico e escritor. Membro da ALCAB, Academia de Letras Ciências e Artes de Bandeirantes (PR). O texto acima foi escrito para integrar a coletânea "A Saga de Bandeirantes" a ser publicada ainda em 2010. Semanalmente, André publica sua crônica no blogue AVASSALADORAS RIO , no site LENÇÓIS NOTÍCIAS e no site BRASILWIKI. Todos os direitos reservados. VOLTAR PARA ANDRÉ FERRER

ANDRÉ FERRER

Projeto "A Saga de Bandeirantes" (2010)

A Saga de Bandeirantes é um projeto da Academia de Letras Ciências e Artes de Bandeirantes (ALCAB), que reunirá a História dos descendentes de cada um dos vinte acadêmicos. André Ferrer ocupa a cadeira número 05. Tem o escritor Graciliano Ramos como patrono. Logo abaixo, acesse dois textos referentes ao projeto. O primeiro trata das dificuldades impostas pelo gênero memorialista. O segundo é o texto de André Ferrer que provavelmente será incluído na coletânea.

2) Três idades da alma da gente



André Luiz Ferrer Domenciano é farmacêutico e escritor. Membro da ALCAB, Academia de Letras Ciências e Artes de Bandeirantes (PR). Semanalmente, publica sua crônica no blogue AVASSALADORAS RIO , no site LENÇÓIS NOTÍCIAS e no site BRASILWIKI. Todos os direitos reservados. VOLTAR PARA O INÍCIO

domingo, agosto 22, 2010

INVENTADOS E VERDADEIROS: A MINHA SAGA PSICOLÓGICA

A Academia de Letras Ciências e Artes de Bandeirantes (ALCAB) lançou um desafio a todos os membros: escrever a respeito dos antepassados que ajudaram a construir o município. O livro a ser produzido, A saga de Bandeirantes, provavelmente será publicado ainda em 2010

Bandeirantes é uma cidade localizada na Região Norte do Paraná. Tem aproximadamente 33.000 habitantes e conta com duas universidades, uma pública e outra privada. O cultivo da cana-de-açúcar e a agricultura, em geral, estão na base da economia. No mês de novembro (14), o município completa 76 anos de emancipação. A exemplo de inúmeras cidades do interior do Paraná “cafeeiro”, Bandeirantes foi um dinâmico centro de imigração nas primeiras décadas do Século XX. Portugueses, espanhóis, japoneses, alemães, entre outras nacionalidades, além, é claro, de mineiros, paulistas, cearenses, baianos, entre outros, constituem a base étnica da cidade.

Para muitos acadêmicos, acredito, A saga de Bandeirantes nasce como um livro de memórias. Para mim, definitivamente – que não fui testemunha ocular da “arribação” –, é um penoso exercício de remontagem.

Quando encarei o desafio, descobri que pisava em solo movediço. Fazia-se necessária uma espécie de proteção ou mecanismo psicológico. Caso contrário, a minha participação estaria comprometida. Ou, pelo menos – por ordem médica –, eu estaria incapacitado de me apresentar na festa do lançamento.

Sou criterioso. Decidi estudar a jurisprudência do caso antes de iniciar a escrita. Uma legião de paranóias me rodeava.

Escrever memórias é coisa para maduros; para depois dos cinquenta anos; para depois que uma grande parte das armadilhas psicológicas já se apresentou e o indivíduo é aquilo que se costuma chamar, à miúde, de pessoa bem resolvida. Certo? É o quê dizem alguns. E antes dos cinquenta anos? Temeridade! Ora, se a crise dos quarenta não veio ainda – meu caso – ou está prestes a acontecer, nada parece mais perigoso. Na prática, entretanto, escrever memórias com trinta, cinquenta ou noventa anos de idade significa mexer numa fervilhante caixa de abelhas. Antes da temida exposição, é preciso colocar as mãos na colméia, ter resistência para deixá-las bem afundadas por tempo suficiente e retirá-las ainda intactas a fim de realizar o trabalho.

Em primeiro lugar, eu me convenci de que as nebulosas recordações das minhas bisavós maternas bastariam. Do lado paterno, vale dizer, só conheci meus avós. Eu precisaria somente encontrar o tom mais adequado para que tais clarões combinassem com as minhas fontes, digamos, indiretas (ou apud), e com a estrutura que eu escolhesse para o texto. Depois, felizmente, eu me lembrei de que muitos escritores de ficção resvalam no memorialismo. Fazem uma literatura que é um misto de memória e ficção. Preenchem com a criatividade as lacunas de tudo aquilo que é difícil de recordar por inteiro ou que lhes foi contado de maneira fragmentada. Caso, por exemplo, de três grandes escritores brasileiros, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego e Carlos Heitor Cony. Este último, aliás, produziu um romance cujo título é bastante ilustrativo, Quase memória.

Gênero difícil. Próximo demais de tudo o quê há de sentimental e traumático na vida de quem escreve. Muitos iniciantes na arte da escrita – por inocência ou falta de assunto – cismam de começar justamente por ele. Enquanto isso, a maioria dos grandes escritores foge do memorialismo. Dizem que ainda não é o momento. Adiam a mais patética das ações que um ser humano cheio de pudores pode realizar em vida: expor a própria intimidade. Ou, quando muito, fazem como Cony, Raquel de Queiroz e José Lins do Rego: melhoram a realidade com a arte. Felizmente, para quase todos esses gigantes da literatura, a morte chega primeiro.

Munido de coragem e algumas frágeis convicções, prossegui. Uma das minhas convicções é de que o texto terá como pano de fundo a minha relação com a escrita. Outra é de que terá um clima de ensaio. Narrativa pura, definitivamente, fora de cogitação. Há dois meses, escrevo e paro, escrevo e paro, numa espécie de ciclo cartático e trevoso. Conhecer as raízes e, sobretudo, o local onde se acham fincadas tem sido difícil para mim. O trecho a seguir, que narra uma passagem da minha infância, bloqueou-me por, pelo menos, duas semanas. Ainda não sei se figurará no texto definitivo.

“O meu bisavô espanhol era serralheiro. Chegou a Bandeirantes com a sua família na década de 1940. Trabalhou na instalação da empresa Açúcar e Álcool Bandeirantes. Foi proprietário de uma oficina de serralheria que, depois de se aposentar, ele deixou para os filhos. Abriu, então, um comércio de frutas e verduras. A serralheria dos Ferrer Palomares empregou jovens que se tornariam grandes profissionais do ramo. Infelizmente, o meu bisavô espanhol faleceu muito antes de que eu pudesse conhecê-lo. Nasci em 1973. Pude, entretanto, conhecer a bisavó Angelina.

“Mulher vigorosa e muito disposta com fios e agulhas. Lembro-me de uma temporada que ela passou em casa. Foi antes do meu ingresso na escola. Menino rabiscador. Vivia projetanto e construindo brinquedos com papel velho, tesoura rombuda e qualquer material rejeitado. Fazia brinquedos estranhos naquela época, meio verdadeiros, meio inventados. Aberrações, com certeza, mas que, para mim, eram objetos eficientes. Lembro-me de um deles, uma carrocinha de rodas imaginárias puxada por um cavalinho branco, que não me sai da memória por causa da hóspede e do grau de dificuldade com que se apresentou a consumação do projeto. Ninguém me ajudava. Todos preocupados com a visita. Criei coragem. Nas mãos, uma caixa de fósforos vazia, um cavalinho de plástico e um barbante. A mulher entendeu. Apanhou a caixinha e providenciou dois furos para o barbante. Foi dessa vez que eu aprendi a construir um nó simples. Átomo da indústria têxtil. Com centenas de laçadas assim, bem apertadinhas, a vovó Angelina tecia uma respeitável mantilha andaluz. Passei o dia com a carrocinha nas mãos. Ela tricotou a soma dos nós. O universo, as tramas e os brinquedinhos de rodas imaginárias têm nós como matéria fundamental. Incontáveis laçadas que, no final do dia, originaram a textura esperada.”



André Luiz Ferrer Domenciano é farmacêutico e escritor. Membro da ALCAB, Academia de Letras Ciências e Artes de Bandeirantes (PR). Semanalmente, publica sua crônica no blogue AVASSALADORAS RIO , no site LENÇÓIS NOTÍCIAS e no site BRASILWIKI. Todos os direitos reservados. VOLTAR PARA ANDRÉ FERRER

terça-feira, agosto 17, 2010

DIPLOMACIA DE CORDEL

Queriam apedrejar, mas decidiram enforcar a viúva iraniana Sakineh, acusada de ter colocado um belo par de chifres póstumos na cabeça do marido.

Enquanto isso, em Washington, a pergunta “Como dar um basta no programa nuclear iraniano?” esquenta o debate. “Guerra neles!”, é a resposta que mais ganha força.

Aqui no Brasil, a propaganda eleitoral na TV começa sob a onda de choque da decolagem da petista Dilma Rousseff. Biografia?! Quem precisa de biografia no país que não tem memória?

Semana passada, Lula ofereceu varanda, rede e palanque para abrigar Sakineh. O governo iraniano negou. Disseram que o presidente brasileiro é sentimental. Eles não conhecem isto aqui em ano de eleições!

Para quem é brasileiro e não se lembra nunca, Lula vem ajudando o Irã naquele negócio da bomba. No caso da adúltera, o presidente bandeou mais para o Demônio do Ocidente do que para o Reino de Alá. Mas, afinal de contas, esse “vacilo” estaria relacionado com os prenúncios de um ataque militar dos EUA ao Irã ou com a plataforma feminista de Rousseff? O quê teria balançado a convicção do grande parceiro da Turquia na defesa do direito iraniano de ter armas de destruição em massa? O medo da Águia? A vontade pai d'égua de conquistar votos da mulherada e deixar uma sucessora?

O governo de Ahmadinejad acusou o Demônio do Ocidente e seus asseclas democráticos de usarem o caso da messalina viúva para “enfraquecer as relações Irã-Turquia-Brasil”. Ramin Mehmanparast, porta-voz da Chancelaria do Irã, declarou esta semana que Lula e o ministro Amorim desconhecem os detalhes do caso.

Primeiro, fiquei curioso. Depois, veio-me a suprema iluminação: no Irã, inexiste o folclore ao redor do corno; a cartase fundamentada no humor dá lugar à pena de morte. Falcão, girassol na lapela, é coisa da terra que consagrou Lula, o defensor dos pobres de crítica, Guevaras anacrônicos e aiatolás globalizados. No Irã, Reginaldo Rossi jamais cantaria Garçom num programa de TV. Ora, detalhes... Lula precisa disso? Ele é nordestino. E nordestino imagina os detalhes. Inventa canções e piadas; compõe e ilustra toscas e admiráveis encadernações. Quem desconhece os detalhes é esse tal de Ramin! Adultério, no Brasil, rende mais parábolas do que o Corinthians.


André Luiz Ferrer Domenciano é farmacêutico e escritor. Membro da ALCAB, Academia de Letras Ciências e Artes de Bandeirantes (PR). Semanalmente, publica sua crônica no blogue AVASSALADORAS RIO , no site LENÇÓIS NOTÍCIAS e no site BRASILWIKI. Todos os direitos reservados.

sábado, julho 31, 2010

ARESTAS DA HUMANIDADE

Era uma vez um maestro que reuniu a sua orquestra para um diálogo. A cada concerto, o grupo se desentendia: todos queriam brilhar, mas não gostavam de carregar intrumentos. O maestro pensou. Ele concluiu que a única saída era o advento de um novo ofício. A única forma de estabelecer a paz era contratar alguém para o trabalho duro. Sendo assim, eles concordaram. Que inovação! O mundo, afinal, era muito novo naquela época. Os animais falavam. Os carregadores de instrumentos não existiam.

Pois é: o trabalho em grupo sempre foi um mal necessário.

A minha experiência, pelo menos, tem sido de pouca satisfação. Na universidade. Na vida profissional.

Quando estudava, sempre saía perdendo. As criaturas folgadas me cercavam. Com o prazo a vencer, alguém precisava colocar a mão na latrina e revolver a sujeira para que, no final da história, o grupo inteiro brilhasse. Regra da maldição: em trio de três raramente se trabalha em dupla.

Antes que me julguem intransigente ou convencido, explico. Ah! Eu também não quero que me transformem numa espécie de pária nos departamentos de RH.

Sempre gostei de escrever e o meu perfil sempre fazia com que o palpite das pessoas a respeito da minha escolha profissional apontasse para as Humanidades. No curso de Farmácia, que apesar da multidisciplinaridade raramente atrai o interesse de aspirantes a escritor, eu virava tábua de salvação na hora dos penosos trabalhos escritos.

De lá para cá, sinto asco do arrivista em todas as suas versões, com ou sem opcionais de fábrica. E aquele tipo gritante sem nenhum pudor na indiscrição?! Costumo chamá-lo de vampiro do marketing pessoal.

Quem é ele? Ora, ele vive do talento alheio mediante acordos (jamais honrados na sequência), opressão ou cara-de-pau; ele atinge o máximo da sua capacidade vampiresca se há política na jogada. Sim: talvez eu esteja um pouquinho intransigente nesta crônica.

Aliás, uma das vantagens da arte é que o artista pode se confessar imperfeito e impecável a um só tempo. Sim: o ser humano é complexo, às vezes tropeça nas arestas da humanidade. Com sorte, ou azar, às vezes nasce como carregador de instrumentos que também é músico.


André Luiz Ferrer Domenciano é farmacêutico e escritor. Membro da ALCAB, Academia de Letras Ciências e Artes de Bandeirantes (PR). Semanalmente, publica sua crônica no blogue AVASSALADORAS RIO , no site LENÇÓIS NOTÍCIAS e no site BRASILWIKI. Todos os direitos reservados.

sábado, julho 24, 2010

O BESTIÁRIO DA HIPOCRISIA

Só no zapping. Controle remoto em riste. Parei e vi Fernanda Montenegro na TV Câmara: documentário sobre a evolução do poder em nosso país.

“Como ele pôde apertar a mão do assassino da própria esposa?!”

Em seu depoimento, a atriz falava de Luís Carlos Prestes e da sua inacreditável aliança com Getúlio Vargas. A esposa, Olga Benário Prestes, conforme Fernando Morais e o novíssimo cinema brasileiro ensinaram à juventude (auxiliando, providencialmente, as inócuas lições escolares de História), faleceu num campo de concentração nazista. Presente de Vargas ao seu estimado III Reich.

E o próprio Getúlio que, em plena Segunda Guerra, teve que enfiar não sei onde o chicote, as paradas marciais e os estandartes à Mussolini! Pois é. Bastou um rosnado lá do Grande Irmão do Norte para que o nosso ditadorzinho virasse a casaca. Resultado: muitos rapazes foram parar na Itália; morreram de tiro, de frio e (novamente!) de banzo.

Cair em contradição na maior desfaçatez, apoiar hoje o inimigo mortal de ontem, trair a ideologia dos avós em troca de um “carguinho”, perdoar um bandido, enfim, reciclar para não perder o bonde corporativo figuram no bestiário que é a crônica do poder. Não é à-toa que ninguém se assombra. Todos insensíveis! Quem hoje fica indignado como a jovem Montenegro décadas atrás?

“Histórias do poder”, o documentário (em exibição, via parabólica ou web, na TV Câmara; veja neste endereço AQUI ), assombrou-me ou, melhor, fortaleceu-me a capacidade de assombramento (leia sensibilidade) em pleno desfile banalizador de picaretagens e impunidades que ainda é o cenário político nacional. Sendo assim, (e)leitor, ligue o aparelho e assista.

Chave de ouro: 69 dos 334 nomes que disputam cargos de governador e vice declararam não ter qualquer patrimônio segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Um em cada cinco, portanto, enviou o seu atestado de indigência à Justiça Eleitoral. Pobrezinhos! Andam a pé. Moram na praça. Dependem dos homens de boa vontade. Não têm (vários informaram!) sequer uma conta bancária. Como assim? Nem para sacar a Bolsa Família!
 
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Texto publicado no site de notícias BRASILWIKI  e no blogue AVASSALADORAS RIO em 25 de julho de 2010 onde o autor escreve semanalmente a coluna SURRA DE GRAVATA. Todos os direitos reservados a André Ferrer.

terça-feira, julho 20, 2010

ALGUM RESPEITO

O edital de concorrência do trem de alta velocidade (TAV), que ligará o Rio de Janeiro a São Paulo e a Campinas, foi lançado há uma semana (terça-feira, 13). Lula garantiu que a obra é para 2014 e retrucou as críticas da FIFA que, segundo ele, trata os brasileiros como “um bando de idiotas que não sabe fazer as coisas ou definir prioridades”.

Por motivos óbvios, o otimismo do presidente é um item de suma importância este ano. Compreensível. Não deixa, entretanto, de alarmar muitos de nós que, há décadas, já desistimos de nos ofender com esse tipo de olhar estrangeiro, tendo-o, mesmo, incorporado ao nosso exercício de autoavaliação. Atrás desse afago presidencial, não estaria escondida uma imensa batata quente? Aeroportos e estádios, OK. Mas e o TAV? As línguas mais realistas dizem que um projeto assim só estará pronto depois da Copa, em 2016.

A resposta e a intenção de Lula são ingênuas. Ele desconhece a imagem que os brasileiros fazem do país e de si mesmos?

Na década de 1960, um incidente provocado por pescadores franceses em águas brasileiras teria feito Charles de Gaulle dizer: “O Brasil não é um país sério”. A declaração logo foi tomada como verdade absoluta, muito embora fabricada num clima de comunicação distorcida entre a imprensa e o corpo diplomático brasileiro na França; algo, aliás, bastante comum naqueles anos autoritários e ultranacionalistas. De Gaulle negou as palavras até a morte. Registro algum jamais existiu em papel, áudio ou vídeo. Foi mesmo o povo brasileiro, com a sua curiosa maneira de se autoavaliar, quem transformou o boato num caso real.

Mais de quatro décadas depois, muitos brasileiros achamos uma bobagem responder a provocações do tipo. Muitos de nós preferimos enxergar sintomas no lugar de ofensa quando isso acontece. Não somos um bando alegre e pentacampeão do mundo sem respeito algum. Ao passo em que o nível de informação cresce, usamos a nossa autoimagem para enriquecer a consciência e cobrar das autoridades que mecanismos éticos sejam instalados na sociedade.

O número de candidatos impugnados pelo Ficha Limpa cruzou a marca dos 300 ainda na semana passada. Perdemos a Copa, mas ganhamos algum respeito.
 
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Texto publicado no jornal impresso Folha do Norte Paranaense (Ano III, Nº 139, 20/07/2010), que circula às terças e sextas, a partir de  Bandeirantes, em Andirá, Abatiá, Barra do Jacaré, Santa Amélia, Santa Mariana e Itambaracá, todos municípios da Região Norte do Paraná.

domingo, julho 11, 2010

INCALCULÁVEIS DILEMAS

Nas duas últimas semanas, planejei escrever sobre a derrota do Dunga (óbvio demais) e também a respeito do intrigante encontro de Dilma Rousseff e Lily Marinho, a viúva de Roberto Marinho. “Dilma e Lily”, crônica com nome de musical da Broadway e tudo! Vejamos: o cenário, a mansão dos Marinho no Cosme Velho; o enredo, bem o enredo merece um parágrafo à parte. O próximo.

Nas eleições, aos olhos do populacho, até parecem inimigos mortais. Em “off”, reúnem-se para a nouvelle cuisine, o prosecco e aquela cara de paisagem.

A gripe que eu peguei me livrou dessa responsabilidade. Fiquei de cama. Esbocei um palavrório febril a respeito da Seleção. Joguei fora, no dia seguinte, assim que a temperatura caiu. De quanta besteira somos capazes quando um vírus invade os nossos mais íntimos humores!

O cronista é um paranóico. Tem grande chance de desenvolver esquizofrenia e transtornos obsessivos compulsivos. Modernamente, acrescento tecnomania.

O problema é a profusão de assuntos e as infinitas maneiras de que o cronista moderno dispõe para se manter atualizado.

Antigamente, o sujeito que escrevia crônicas ia atrás do cotidiano. Saía da frente da sua Olivetti. Ganhava as ruas e os bares em volta do cais do porto, que era onde as histórias mais incríveis aconteciam. Os sedentários falavam com os porteiros. Tinham como afilhado algum piá do subúrbio, herdeiro de motorista de praça; como conhecido, um representante, pelo menos, da cada classe, partido ou esfera com quem bebia ou jogava. Em todo caso, diligentes e acomodados eram unânimes quando diziam que uma história comezinha e aproveitável dificilmente lhes cairia no colo do nada e de repente.

Antes da Internet, as notícias envelheciam devagar. O quadradinho da crônica era o quê havia de mais efêmero na grande imprensa. O cronista e o repórter, ainda que a mesma pessoa, eram artífices distintos. Um era domador de feras e o outro, palhaço. Agora, tudo mudou. O cotidiano de todas as grandes cidades, afinal, só depende de um clique! Acessamos a notícia do último minuto que mais parece uma crônica e a crônica, de tão elaborada, confunde-se com uma típica reportagem.

Papéis trocados para o nosso deleite e loucura! O cronista digital é um palpiteiro com grande poder de fogo. Às vezes, reza para pegar uma gripe e se livrar de incalculáveis dilemas.

sábado, junho 26, 2010

ENTRE OS QUE TÊM ATÉ A 8ª SÉRIE NO BRASIL, 78% É DE ANALFABETOS FUNCIONAIS

Apesar das manchas, a política brasileira comete acertos. Benefícios importantes nem sempre chegam à população por caminhos diretos e aparentam, com muita frequência, existir milagrosamente ou por acaso.

No universo da política e da administração pública, determinadas ideias ou ações chegam a ter uma natureza que, sobretudo no início, beira o acidental. Num pequeno intervalo de tempo, entretanto, logo que o assunto começa a chamar a atenção, aparecem dezenas de candidatos a “pai da criança” e os cidadãos terminam, infelizmente, acreditando em algum oportunista inescrupuloso. A impressão de “magia ou milagre” se dissipa. Dá lugar ao crédito de sicrano ou beltrano por ter feito bem à população.

Ao longo da gênese de um projeto, uma variedade absurda de movimentos acontece de maneira misteriosa e imperceptível até mesmo para olhos treinados. Nesse curto espaço de tempo, nada é facilmente reconhecível. Os verdadeiros motivos desaparecem depois que o “processo de adoção” termina.

Deste modo, a razão nos mostra o quão temerário tem sido o exercício da Democracia neste país de escolaridade risível. Se nem mesmo o cidadão informado e preparado criticamente enxerga os meandros do mais novo projeto de salvação da pátria em curso, o quê dizer do cidadão despreparado? O quê afirmar sobre a massa de manobra que aceita este ou aquele espertalhão como se fosse o último gênio da política nacional, estadual ou municipal?

Na base do problema, o analfabetismo na sua mais grave e sorrateira manifestação, o chamado analfabetismo funcional, que atinge pessoas dos mais variados níveis profissionais, econômicos e sociais, caracterizado, essencialmente, pela dificuldade na interpretação de textos que exijam capacidade analítica mínima (o dado acima, no título, entre outros do ano de 2009, o leitor encontra na página do Instituto Paulo Montenegro, referentes ao INAF, Indicador de Analfabetismo Funcional). Tais pessoas, apesar de alfabetizadas “formalmente”, não conseguem apreender o significado de textos bastante simples como cartas, manuais de instrução, rótulos de produtos industrializados, precrições médicas, entre muitos outros. E o quê dizer dos contratos? As notícias e os editoriais de jornal? As resenhas críticas? Os panfletos? De quê maneira o analfabeto funcional pode construir a própria opinião sobre determinado assunto?

Nos últimos oito anos, a educação sofreu mudanças que, como é típico do atual governo federal, em nada revolucionam a estrutura, ficam na superfície, isto é, ao alcance de qualquer olho simplório, prestando-se apenas ao marketing eleitoral. A mesma filosofia populista e assistencialista que contaminava as discussões e atitudes políticas no campo das ações sociais passou, de uns anos para cá, a contaminar também as ações relacionadas so problema da educação. Também neste campo, e de maneira descaradamente sensacionalista, oferta-se a esmola que nada ensina a uma geração que sequer terá chance de aprender a aprender.

Num país carente de massa crítica, a cultura, naturalmente, padece. Quanto, em todo o Brasil, os municípios investem na promoção da cultura? Salvo em algumas poucas ilhas de excelência, muito pouco. Em geral, a falta de estrutura humana é alarmante nos grotões do país onde a escassez de RH gera, inevitavelmente, a falta de estrutura física.

No Brasil do Prouni, do Sisu e das cotas, 93 mil escolas de ensino fundamental simplesmente não têm biblioteca (Censo da Educação Básica de 2008). Obras como a construção ou reforma de quadras esportivas ganham disparado em comparação aos espaços culturais e aquilo que resta de “outras eras” termina, invariavelmente, em poder do setor privado, tendo destinos que se distanciam bastante da educação, da cultura ou mesmo do simples entretenimento da população.

Em alguns casos, quando o quê interessa é a especulação imobiliária, o espaço se transforma num amontoado de entulho. Em outros, quando as instalações se encontram em bom estado, a estrutura dá lugar a um tipo de lavanderia onde o que se lava é a culpa dos ingênuos, a grana dos espertos e o cérebro dos fracos de opinião. Nas últimas décadas, em centenas de municípios brasileiros, teatros e cinemas passaram a abrigar igrejas que mais parecem franquias do esperto negócio do pastor Jim Jones. Isso acontece, mais uma vez, porque os gestores municipais preferem ficar ausentes quando a questão é a cultura. Salvo, é claro, naqueles casos misteriosos, em que acontece um milagre e algum “político sortudo” se vê na hora e no lugar certos para assumir a paternidade da obra.

Este ano, existe uma infinidade de ideias e ações aparentemente órfãs que o eleitor precisa enxergar e analisar cuidadosamente. É frustrante saber que conselhos assim pouco adiantam. A massa desmiolada e despreparada sempre põe tudo a perder, completamente encantada pelos oportunistas que assomam do caos político e tomam a forma de verdadeiros heróis. Infelizmente, a ilusão de que basta saber assinar o nome e dominar as quatro operações matemáticas para ser dono de si atira milhões de pessoas na Idade Média, no tempo em que não se usava a razão nem a Ciência para interpretar os fenômenos naturais e sociais.

sábado, junho 19, 2010

ESQUARTEJADORES DA AUTOESTIMA: OS PRATICANTES DO BULLYING

Na Alemanha dos primeiros tempos do Nazismo, a Juventude Hitlerista constituia uma das grandes forças disseminadoras do antissemitismo, principalmente nas escolas onde encontrou terreno fértil entre os jovens e a sua naturalmente conflituosa diversidade. A fórmula se repetiu década adentro, 1940, 1941, 1942... As mesmas pessoas que humilhavam e eram humilhadas cresceram (é claro, cada qual no seu “lado” da História), sendo que, um pouco adiante, “patriotas” e prisioneiros acabaram se reencontrando em lugares como Auschwitz e Dachau. Lá pelos idos de 1944, a “rapaziada” já tinha se transformado em carrascos nacionalistas ou em corpos carbonizados.

A cronologia, evidentemente, é simbólica. O antissemitismo já vinha de muito antes e, convenhamos, quatro ou cinco anos é um período estreito. As efervescências na sociedade alemã, compreendidas entre 1918 e 1939, enriqueceriam, de fato, o parágrafo anterior mas, ainda assim, o significado daquelas linhas permaneceria bastante débil no que se refere à verdade histórica. Um artifício, admito. Reduzi um processo milenar e o coloquei, a favor da retórica, numa década simbólica, os anos da Segunda Guerra Mundial. Mas é o símbolo, muito mais que o rigor, a metáfora, o sentido alegórico, muito mais que a verdade, enfim, o acúmulo secular do ódio numa geração prestes a ingressar na vida pela porta da guerra que realmente pesa nesta minha despretensiosa consideração. Em outras palavras, carreguei na tinta para segurar o espectador.

Mas leitor – meu “fisgado” leitor –, seria exagero imaginar que tragédias tão marcantes como aquela poderiam começar com apelidinhos trocados no pátio da escola? Coisa tão “corriqueira” e até natural poderia reforçar o ódio e elevá-lo a patamares inimagináveis em duas ou três gerações? Exagero nenhum! Bastou semear a diferença e o terror medrou. O terror ocupou a Áustria e depois a Polônia e depois a França. Realmente, nada que uma pitadinha de ideologia e oratória hipinotizantes não resolvesse! Resolveu: boa parte da Europa, num descuidado olhar ofuscado (em plena guerra-relâmpago ou, se preferir, blitzkrieg em alemão), terminou sob o domínio nazista.

Logo atrás de um apelido inocente pode estar à espreita o mais arraigado preconceito. Um apelido, por menos ofensivo pareça, sempre se presta a ofender e animalizar uma pessoa sem que os presentes larguem seus talheres ruidosamente sobre a prataria. É exatamente assim, em plena urbanidade, sob uma aparente camaradagem, que tudo começa para piorar em seguida. É quando o grupo mais forte se vê proprietário de todos os direitos em detrimento do estranho, do exótico, do irregular, enfim, do mais fraco reduzido à inferioridade animal.

Lembre-se: antes de destruir alguém, desqualifique esse alguém, animalize o outro e torne a coisa mais fácil para você! Tente transformar em Quasímodo (personagem de Vitor Hugo em O corcunda de Notredame) as possíveis fontes de reflexão para que a culpa não te persiga incomodamente. Na essência, eis a prática do bullying.

No universo escolar, esse comportamento foi amplamente estudado na Noruega, entre 1978 e 1993, por Dan Olweus, professor da Universidade de Bergen que, no início da década de 1970, investigava o assunto de maneira independente pois nenhuma das instituições norueguesas estava minimamente interessada. A partir da década seguinte, quando três rapazes entre 10 e 14 anos cometeram suicídio motivados por situações graves ocorridas no ambiente escolar, o governo e as instituições de ensino começaram a prestar mais atenção ao problema. Somente em 1993, iniciou-se naquele país a Campanha Nacional Anti-Bullying em todas as escolas.

Aqui no Brasil, as primeiras discussões também remontam à década de 1990 sendo que, recentemente, devido à novíssima modalidade do bullying, o cyber bullying (realizado com a ajuda da tecnologia), o assunto ganhou notoriedade.

Serginho Groisman, por exemplo, faz campanha contra o bullying. Vítimas desse tipo de violência ganham espaço no seu programa, o Altas Horas, nas madrugadas de domingo, desde que um dos garotos da platéia se manifestou, alguns meses atrás, desencadeando uma súbita comoção na “galera”, nos convidados famosos e no apresentador. Groisman também consulta especialistas e profissionais de diversas áreas engajados no combate ao bullying. Além disso, uma peça educativa sobre a prática vem sendo exibida pela Rede Globo nas últimas semanas. O apresentador do Altas Horas é quem protagoniza o comercial.

Todas as formas de agressão, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outros, causadoras de dor e angústia, e que são executadas dentro de uma relação desigual de poder, devem ser entendidas como bullying pelos pais e professores. Deste modo, ações repetidas entre estudantes e pronunciado desequilíbrio de poder, que possibilitem a intimidação da vítima, são as características essenciais do bullying. A observação atenta dos educadores é primordial. Na maioria das vezes, a vítima imagina que o problema realmente está nela e não nos agressores.

De volta à questão do primeiro parágrafo, àquele estilo, digamos, sensacionalista que propositadamente adotei, devo informar ao leitor o seguinte: para mim, valeu a pena. O combate ao bullying é uma dessas causas que merecem destaque dramático e apelativo em qualquer circunstância num país que só aprende com a consumação de tragédias anunciadas ou com alguma novela da Glória Perez.

Serviço: Existe uma página dedicada ao bullying no site Observatório da Infância. Trata-se de um pacote completo para pais e professores. Nele, há um questionário para ser aplicado nas escolas, uma cartilha sobre o assunto e uma apresentação em Power Point, com 43 slides, pronta para ser usada em palestras.

sexta-feira, junho 11, 2010

O ELEFANTE VERDE, AMARELO, AZUL E... BRANCO!

Na Índia, os elefantes brancos recebem sempre um tratamento VIP. Nada de maltratá-los com aqueles incômodos cestos de caça (para o transporte humano) ou aquelas pesadíssimas toras de madeira tão condenadas nas edições da revista National Geographic. O trabalho duro, portanto, cabe aos espécimes tingidos pela mãe natureza. O felizardo que por ventura possuir um paquiderme branquinho deverá abrigá-lo, alimentá-lo e paparicá-lo até a morte. Vender ou abandonar um elefante branco à própria sorte é imperdoável na Índia. Um legítimo elefante branco é tão respeitado por lá quanto a manjada vaquinha. Especialmente, vale dizer, se o animal for um presente de marajá.

Interessante. Vocês não acham? Eis a origem do termo que se usa hoje como sinônimo de obra ou aquisição inútil e dispendiosa.

Campeão da modalidade, o governo de todos os tempos, esferas e partidos deste país deverá se desdobrar para minimizar o impacto das tentações licitatórias durante os vindouros mega-empreendimentos da Copa e das Olimpíadas. A opinião pública brasileira parece cada vez menos idiota e passiva diante das falcatruas institucionais.
 
No mesmo dia em que se confirmou a validade do Ficha Limpa nas eleições deste ano (quinta-feira, 10 de junho), William Waack, do Jornal da Globo, falou direto da África do Sul a respeito da grande insegurança orçamentária dos atuais anfitriões da Copa. “Os sul-africanos investiram muito dinheiro no mundial e ninguém sabe qual será a conta final do investimento”.

Waack é o contra-ponto austero de uma numerosa equipe ufanista e superficial que se encarrega da cobertura da poderosa emissora na África do Sul. O jornalista global fez a melhor avaliação que um brasileiro poderia fazer sobre a distância entre estas duas coisas: (1) conseguir convencer uma comissão organizadora da FIFA ou do COI e (2) realmente possuir os culhões necessários para sediar um grande evento com visão realista e transparência político-administrativa. Cá entre nós: o governo de todos os tempos, esferas e partidos deste país é mais competente e honesto que o governo do presidente polígamo?
 
“A grande novidade é o primeiro trem de alta velocidade do país”, afirma o apresentador do Jornal da Globo, tão grave como se estivesse em Davos ou no Iraque; mas não está. Logo descobrimos que William Waack fala do interior de um dos luxuosos vagões que ligam o aeroporto internacional ao centro de Joanesburgo (Clique AQUI para assistir à matéria na íntegra).
 
Um segundo depois, vemos o jornalista sobre o fio da navalha. Sua pauta não pretendia contrariar as intenções da casa, mas contrariou. Ele adverte que os próximos anfitriões da Copa deveriam tomar a experiência sul-africana como lição. Simultaneamente, milhares de brasileiros torcem o nariz na frente do recém-adquirido aparelho deTV. Em 2014, as imagens reais serão captadas pelos próprios olhos no lugar da realidade Full HD! A Copa do Mundo é nossa! Para o inferno, William Waack; você e as suas olheiras de urucubaca! Tomara que te substituam logo pelo irmão do Oscar Schmidt! E quanto aos estádios (tanto faz se novinhos em folha ou restaurados), um aproveitamento brasileiro pós-mundial será bem maior do que o sul-africano! Ah, bobalhão, e tem as Olimpíadas no Rio! Todos juntos! Vamos! Pra frente Brasil contra os estraga-prazeres metidos a intelectuais!

Bom argumento. Um verdadeiro achado para todo aquele que aprova e se ilude ainda mais quando a Fátima Bernardes e o Galvão Bueno trocam amabilidades verde-amarelas. Afinal de contas, há bola rolando o ano inteiro neste país; os estaduais, o brasileirão, as inúmeras divisões dos estaduais e do brasileirão e, no Rio, é claro, os inexoráveis Jogos Olímpicos... Um sem-número de opções de uso e abuso da infra-estrutura a ser instalada ou aperfeiçoada. Elefante branco?! Aqui? Impossível! Na terra do Mandela, entretanto, a coisa é bem diferente; o dinheiro gasto com esse tipo de infra-estrutura em Soweto parece estar destinado à inutilidade tão logo a Copa termine. O ESPN, por acaso, já transmitiu o campeonato nacional daquele país? Transmitiu? É com você, Márcio Canuto!

Eu não disse?! O contra-ponto de todos eles, William Waack, acertou na ferida! Basta pensar na seguinte verdade: uma Copa do Mundo não é feita só de Maracanãs! Basta que se pense um pouco para derrubar os ufanistas e o seu falso silogismo. Lembre-se, por exemplo, do nosso trem-bala que, segundo consta, ligará muito mais do que um centro urbano a um aeroporto internacional, mas o Rio de Janeiro a São Paulo. Simplesmente, os dois maiores colégios eleitorais do Brasil.

terça-feira, junho 01, 2010

UM ANO INEXORÁVEL

Leitor amigo, preste atenção: nada é tão inexorável quanto isto (nem mesmo as novelas com temática italiana que, de tempos em tempos, reaparecem depois do Jornal Nacional). Com o intuito de incrementar o marketing, nove entre dez “gringos descolados” adoram vir para cá e se meter nas nossas insignificantes vidas de cucarachos.

Na última terça-feira (01), Oliver Stone se encontrou com a pré-candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff. O diretor de cinema norte-americano, que é fã de Hugo Chávez, passa oito dias no Brasil e divulga “Ao Sul da Fronteira”, documentário sobre sete presidentes da América Latina, com destaque, é claro, para o líder venezuelano.

No encontro, Stone elogiou Rousseff e babou nos ovos do Lula. Disse admirar os esforços diplomáticos do nosso presidente e do governo turco em relação ao enriquecimento do urânio pelo Irã.

Em abril, outro gringo descolado, James Cameron, já tinha flertado com a presidenciável Marina Silva. Para quem não se lembra, o cineasta canadense também meteu a colher numa questão particularmente nossa: construir ou não a tal hidrolétrica em terras indígenas. Ele fez tumulto em Brasília. Promoveu o seu filme. Usou e abusou da nossa polêmica questão intestina e caiu fora muito antes que os mais acalorados debates do ano tivessem início.

Marina Silva sozinha, sua cara estranha pintada de azul avatar. Nas mãos quebradiças, que mais parecem gravetos recolhidos no chão de uma épica floresta de minissérie, uma borduna ricamente adornada segundo as artes da terra. O símbolo fálico de uma raça estéril. Em patchwork, os dizeres: “Lembrança de Porto Velho – Volte sempre”.

Inexorável. 2010 é o mais inexorável dos anos. Constituído pelos doze meses mais previsíveis dos últimos dez anos, 2010 se tornará um símbolo! Quer apostar? Avalie carinhosamente o potencial deste ano: Copa do Mundo, eleição presidencial, fim de década... O quê resta dizer? Inexorável.

Nos vindouros debates, tão logo o cheiro de Ecologia surja no ar, é de se esperar que a Dilma se defenda com os apagões e os racionamentos do governo FHC. Quer apostar? E tão logo recupere a palavra, se bem a conheço, ela vai sacar Oliver Stone da manga e desviará todas as atenções para os esforços de Lula em conjunto com os turcos na construção bomba iraniana. Vai dizer que a imagem do Brasil é outra no contexto mundial. Nova imagem?! No lugar de animais selvagens, índios de sunga e futebol, cidadãos críticos de países como Japão, Inglaterra ou Austrália pensarão em coisas como lança-foguetes, mulheres de burca, bigodões, turbantes e carros-bomba tão logo ouçam a palavra Brasil. No lugar de favela, campo de refugiados.

domingo, maio 23, 2010

A ILUSÃO DO ARTISTA

O ciclo para. Descubro-me na iminência de testemunhar e aguardo; até porque aguardar é a única reação capaz de me devolver ao ciclo. Aguardar que um escândalo invasor aconteça; que alguém apareça na minha frente, diga ou faça o necessário, e me embarque o mais rápido possível naquela instigante composição. E deve ser rápido: um segundo ou nada feito. Sim. Nada feito. É imprescindível que me atinjam e escandalizem o suficiente naquele átimo de tudo-ou-nada. É preciso, em suma, que me choquem. Uma superdose de indignação e escândalo precisa vibrar entre as paredes da minha convicção. Só assim, eu prossigo. Imagino as primeiras pedras dessa estrutura quase orgânica, que é o texto, e então avanço através da gare. A máquina de sobreposições dispara dentro de mim. Eu me aproximo. Imagino vapores de locomotivas antigas. Imagino a gare de outras épocas e cravo meus pés no vagão. Estão firmes e o mundo se move. O ciclo é vertiginoso agora que se movimenta. Corre, lá fora, sobre duas trilhas de janelas rápidas; uma trilha para cada olho. Dois olhos estão ocupados; um para cada tarefa, pois a simultaneidade é tão importante quanto parar, de vez em quando, para ser escandalizado. Neste momento, as idéias e a forma se buscam na efervescência. Um texto é meio randômico e metade deliberação. Torna-se crucial o fervor. A inacreditável beleza de um bom texto acabado, em grande medida, é acidental. O passageiro da locomotiva cíclica e recursiva deve abandonar velhas e falsas afirmações caso queira se tornar escritor. Eu sempre escuto um coro de gente agressiva e arrogante nessas paradas. Alguém passa e apregoa lugares-comuns, água mineral da Fonte Estagnação e amendoins torrados. Para ter um estilo, jamais devo abandonar o meu itinetário pessoal; mas também, se quiser escrever com voz própria, devo prestar atenção naquilo que os outros fazem e falam em cada uma das estações. De parada em parada, construo a minha relação com a escrita. Produzir, no meu caso, não é só uma questão de inventar e registrar. O papel rejeita tudo se escapo na indisciplina. Rasgo a criança e jogo no lixo; um infanticida dos mais ativos – vale dizer. Caçador frustrado na desordem da caçada. Tudo em nome da ilusão que baliza na extrema falta de outras balizas. Ilusório. Sim. É ilusório, para todo artista, o rumo da perfeição. Ele acredita, o artista, nos próprios critérios para não morrer. Mesmo que o texto seja esquecido lá fora, ele deve ter, aqui dentro, essa marca mínima; as ranhuras deixadas pelo processo que escolheu como verdadeiro.

sábado, abril 24, 2010

BEM ALINHADO (conto)

Debaixo de uma copada, na semi-obscuridade, havia dois homens fardados. Ao menor sinal de motor, afastaram-se da rua e aguardaram que o veículo se aproximasse.

— Gol.

— Pare com isso. Eles vão enxergar a gente!

— Depois dessa curva?! Impossível. E também tem as árvores!

Realmente, a localização e o formato daquele bosque eram perfeitos. Asseguravam o fator surpresa tão necessário ao projeto da dupla.

O automóvel passou e um dos homens abandonou seu abrigo. Braços abertos, atravessou a rua na diagonal. Parecia tatear o caminho que se projetava sobre a cidade. À certa distância, muito cauteloso devido ao terreno acidentado, voltou as costas para o desfiladeiro.

— Não falei? — disse cuidadosamente.

— Volte aqui!

— Não falei? — repetiu, a voz um pouco mais nítida, mas cautelosa, como se as palavras também pudessem conduzir a um abismo.

— Deixa de palhaçada — o outro mandou. Parecia irritado. A um passo de exercer toda a sua autoridade.

— Gol! É um Gol! — festejou o primeiro. — Não falei? Era Gol! Só pelo barulho do motor conheci.

Atrás dele, morro abaixo, as luzes da cidade bruscamente apagadas pela mancha negra da Guanabara. Para o alto e ao lado, como se fosse um cupinzeiro infestado de vaga-lumes, uma das muitas favelas do Rio de Janeiro.

Esse labirinto, essa gigantesca sobreposição de barracos iluminados, poderia ser tocado com as mãos. Parecia distante, mas ficava logo ali, do outro lado de um caminho íngreme, a contornar a base do morro, lá embaixo, num ponto praticamente invisível do arvoredo. Mais adiante, a rua começava a subir, ziguezagueava e saía do meio dos barracos para fazer uma curva fechada em rampa, logo depois de uma parada de ônibus, entre um paredão rochoso e a ribanceira. Só depois dessa curva, num platô escavado na lateral da montanha, o caminho ficava plano e o arvoredo, que tomava o lugar da rocha e do penhasco, ladeava-o até um pouco mais adiante, quando a claridade urbana reencontrava os blocos do calçamento e a rua começava a descer sobre a cidade.

Ideal como esconderijo às cinco e meia da manhã, o bosque tinha sido eleito para o trabalho que os dois homens deveriam fazer.

— Volte aqui! Deixa de palhaçada e me ajude com as garrafas.

— Ouça!

— Não é nada. Cale essa boca e trabalhe!

— Tudo bem. Estou indo.

Quando se aproximou, trouxe um desalinho gritante, que o chefe ainda não tinha notado.

— Abotoe a farda malandro! Que negócio é esse, aqui, cheio de caretinhas desenhadas na camiseta?!

— Bad boy! Nunca viu?

— Claro que sim! Tá pensando, agora, que é bandido da Zona Sul? Eh! Eh! Eh!

Durante a conversa, os dois homens enchiam quatro garrafas de refrigerante com a gasolina de um galão de cinco litros.

— Você tem razão. Fecho sim. Fecho sim. Não vamos jogar a culpa nos pitboys.

— Ou pior: estragar o disfarce antes que o coletivo estacione!

— Nem fale. Já chega ter suado a beca na caminhada. Nosso morro é longinho heim cumpadi! Além do mais, fico uma besta-fera se derrubo gasolina nos trapos!

— É agora!

— Vamos ver...

— Diga, homem, se o nosso ônibus vem aí! Diga!

Enquanto escutava, o especialista em motores descreveu o avanço do ônibus ao redor do morro, a parada no ponto (Vai lotar heim! Cheio de trabalhadores!) e a marcha pesada no início da ladeira.

— Depois que eu subir, impeça o motorista! Não permita que ele feche a porta e arranque! — mandou o chefe com as mãos na cintura, fazendo pose de policial. — Vamos! E não vá esquecer de abotoar a farda!

Imediatamente, segurando as garrafas de PET cheias de gasolina, posicionaram-se a fim de interceptar o veículo.

— Você tem razão. A camuflagem de PM já tá manjada. É melhor prevenir. O motorista pode até desconfiar e tocar em diante... Se até os danados daqui, no dia que botaram fogo nos nossos, utilizaram o disfarce de polícia! Melhor prevenir.

No meio da rua, com os faróis no seu rosto, ele depositou as garrafas no asfalto, atrás das pernas unidas, e abotoou a farda meticulosamente.
 
 
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Todos os direitos reservados a André Ferrer

quarta-feira, abril 21, 2010

NADA DE NOVO SOB OS ARCOS DA GLÓRIA

Adaptação de um grande sucesso de Zeca Pagodinho, “Dilma, leva eu” será o jingle da campanha do PT conforme anunciado na terça-feira, dia 20 de abril, por Duda Mendonça, que aliás está de volta à publicidade partidária, mas no nível estadual.

Afastado desde 2006, ele chegou a ser o todo-poderoso entre os marqueteiros petistas. Naquele ano, quando o escândalo do mensalão ocupava as manchetes digitais e analógicas, Mendonça foi substituido por João Santana que, ao contrário, nunca entrou em concorrências suspeitas para faturar contas publicitárias de estatais federais no país. E tudo indica, também, que o homem não é adepto das rinhas de galo. Há mais de um ano por detrás da “imagem” de Rousseff, Santana é bem mais discreto do que o publicitário baiano. Ele nunca deu entrevista desde que substituiu Mendonça.

Eu, que nunca morri de amores pela música original, achei a escolha justa. Pelo menos nenhuma canção de verdade, daquelas que toda a gente se orgulha de chamar de arte, será conspurcada. Encontrei, de quebra, um bom motivo para escrever.

Numa das minhas noites catarinenses, ouvi um gaiato fazer o seu comentariozinho infame. O Zeca Pagodinho cantava “deixa a vida me levar, vida leva eu” numa daquelas jukebox multicoloridas da era do CD (arremedo cafona, convenhamos, dos clássicos aparelhos de antanho). A lanchonete formigava. Suas mesas invadiam a calçada e alguns ocupantes podiam sentir o deslocamento de ar produzido pelos carros que passavam pela Avenida Brasil. Se era sábado ou domingo, eu não lembro, mas tenho certeza de que era final de semana. Ah, disto eu tenho certeza, pois quando morava em Balneário Camboriú (pode acreditar), estudava de segunda a sexta! A faculdade de Farmácia, em Itajaí, consumia todo aquele tempo irrecuperável em que eu não estive na praia, os pés espojados na areia, respirando a saudável maresia da juventude. Enfim, alguém numa mesa próxima comparou o garoto-propaganda da Brahma com o gênio Noel Rosa. Uma provocação! Verdadeira blasfêmia cultural.

Zeca Pagodinho é gênio? Reinventou a roda estagnada de um velho engenho macunaímico e é gênio?! Quê nada: a mesma jabuticabeira, a mesma rede de balançar, o mesmo bom selvagem a espera do maná. E Noel Rosa? O maior cronista sonoro da velha capital já tinha mostrado as preguiças e as crenças irracionais do malandro senso-comum lapense. Depois dele, nada de novo debaixo dos Arcos da Glória e ponto final. “Deixa a vida me levar” não é verso que se apresente! Uma vírgula do Noel é infinitamente superior a isto! A malemolência fake do sambinha esotérico de Pagodinho já trazia um quê de jingle na sua previsibilidade.

Naquela época (entre 1996 e 2003), eu rezava o breviário do pragmatismo. A música em questão fazia-me pensar exatamente na ideologia oposta. Horrorizavam-me o proselitismo do improviso, a confiança no porvir, as versões remasterizadas do milenar Maktub, o deus-dará. Eu ficava perplexo ao ver um povo sadio e forte confundido, a todo instante, otimismo e apatia. Deu no que deu: a plebe chegou lá em cima! Subiu a rampa representada por uma minoria que virou elite. Melhor ainda: a minoria que virou quadrilha de mensaleiros.

Sans-culottes, em tempo, respondam-me: adiantou alguma coisa se, de Stalin a Fidel, todos já foram roceiros mal-ajambrados?... Se o despotismo frequentou o Madureza e ficou esclarecido?! Ora, quem ainda não comeu jabuticaba sempre pode acabar enfezado.

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