domingo, maio 23, 2010

A ILUSÃO DO ARTISTA

O ciclo para. Descubro-me na iminência de testemunhar e aguardo; até porque aguardar é a única reação capaz de me devolver ao ciclo. Aguardar que um escândalo invasor aconteça; que alguém apareça na minha frente, diga ou faça o necessário, e me embarque o mais rápido possível naquela instigante composição. E deve ser rápido: um segundo ou nada feito. Sim. Nada feito. É imprescindível que me atinjam e escandalizem o suficiente naquele átimo de tudo-ou-nada. É preciso, em suma, que me choquem. Uma superdose de indignação e escândalo precisa vibrar entre as paredes da minha convicção. Só assim, eu prossigo. Imagino as primeiras pedras dessa estrutura quase orgânica, que é o texto, e então avanço através da gare. A máquina de sobreposições dispara dentro de mim. Eu me aproximo. Imagino vapores de locomotivas antigas. Imagino a gare de outras épocas e cravo meus pés no vagão. Estão firmes e o mundo se move. O ciclo é vertiginoso agora que se movimenta. Corre, lá fora, sobre duas trilhas de janelas rápidas; uma trilha para cada olho. Dois olhos estão ocupados; um para cada tarefa, pois a simultaneidade é tão importante quanto parar, de vez em quando, para ser escandalizado. Neste momento, as idéias e a forma se buscam na efervescência. Um texto é meio randômico e metade deliberação. Torna-se crucial o fervor. A inacreditável beleza de um bom texto acabado, em grande medida, é acidental. O passageiro da locomotiva cíclica e recursiva deve abandonar velhas e falsas afirmações caso queira se tornar escritor. Eu sempre escuto um coro de gente agressiva e arrogante nessas paradas. Alguém passa e apregoa lugares-comuns, água mineral da Fonte Estagnação e amendoins torrados. Para ter um estilo, jamais devo abandonar o meu itinetário pessoal; mas também, se quiser escrever com voz própria, devo prestar atenção naquilo que os outros fazem e falam em cada uma das estações. De parada em parada, construo a minha relação com a escrita. Produzir, no meu caso, não é só uma questão de inventar e registrar. O papel rejeita tudo se escapo na indisciplina. Rasgo a criança e jogo no lixo; um infanticida dos mais ativos – vale dizer. Caçador frustrado na desordem da caçada. Tudo em nome da ilusão que baliza na extrema falta de outras balizas. Ilusório. Sim. É ilusório, para todo artista, o rumo da perfeição. Ele acredita, o artista, nos próprios critérios para não morrer. Mesmo que o texto seja esquecido lá fora, ele deve ter, aqui dentro, essa marca mínima; as ranhuras deixadas pelo processo que escolheu como verdadeiro.

Um comentário:

Pedrão disse...

Meu caro! Muito bem escrito. Metalinguisticamente bem escrito. A forma o processo a viagem o estilo a autocrítica e o acidente na ferrovia, aparente desastre que, no entanto, precede o encontro com o velho andarilho que te acompanha na estrada de terra até a próxima estação de trem, onde, de repente não mais que de repente, a garota mais linda jamais vista em tempo algum se esbarra contigo e você pensa 'o acidente não foi tão trágico assim'... 'mas não acabou ainda' É... escrever é viajar sem saber para onde.
aquele abraço

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

MINUTO A MINUTO: A Literatura nos mais importantes jornais do país. Clique na palavra-chave desejada.