terça-feira, agosto 17, 2010

DIPLOMACIA DE CORDEL

Queriam apedrejar, mas decidiram enforcar a viúva iraniana Sakineh, acusada de ter colocado um belo par de chifres póstumos na cabeça do marido.

Enquanto isso, em Washington, a pergunta “Como dar um basta no programa nuclear iraniano?” esquenta o debate. “Guerra neles!”, é a resposta que mais ganha força.

Aqui no Brasil, a propaganda eleitoral na TV começa sob a onda de choque da decolagem da petista Dilma Rousseff. Biografia?! Quem precisa de biografia no país que não tem memória?

Semana passada, Lula ofereceu varanda, rede e palanque para abrigar Sakineh. O governo iraniano negou. Disseram que o presidente brasileiro é sentimental. Eles não conhecem isto aqui em ano de eleições!

Para quem é brasileiro e não se lembra nunca, Lula vem ajudando o Irã naquele negócio da bomba. No caso da adúltera, o presidente bandeou mais para o Demônio do Ocidente do que para o Reino de Alá. Mas, afinal de contas, esse “vacilo” estaria relacionado com os prenúncios de um ataque militar dos EUA ao Irã ou com a plataforma feminista de Rousseff? O quê teria balançado a convicção do grande parceiro da Turquia na defesa do direito iraniano de ter armas de destruição em massa? O medo da Águia? A vontade pai d'égua de conquistar votos da mulherada e deixar uma sucessora?

O governo de Ahmadinejad acusou o Demônio do Ocidente e seus asseclas democráticos de usarem o caso da messalina viúva para “enfraquecer as relações Irã-Turquia-Brasil”. Ramin Mehmanparast, porta-voz da Chancelaria do Irã, declarou esta semana que Lula e o ministro Amorim desconhecem os detalhes do caso.

Primeiro, fiquei curioso. Depois, veio-me a suprema iluminação: no Irã, inexiste o folclore ao redor do corno; a cartase fundamentada no humor dá lugar à pena de morte. Falcão, girassol na lapela, é coisa da terra que consagrou Lula, o defensor dos pobres de crítica, Guevaras anacrônicos e aiatolás globalizados. No Irã, Reginaldo Rossi jamais cantaria Garçom num programa de TV. Ora, detalhes... Lula precisa disso? Ele é nordestino. E nordestino imagina os detalhes. Inventa canções e piadas; compõe e ilustra toscas e admiráveis encadernações. Quem desconhece os detalhes é esse tal de Ramin! Adultério, no Brasil, rende mais parábolas do que o Corinthians.


André Luiz Ferrer Domenciano é farmacêutico e escritor. Membro da ALCAB, Academia de Letras Ciências e Artes de Bandeirantes (PR). Semanalmente, publica sua crônica no blogue AVASSALADORAS RIO , no site LENÇÓIS NOTÍCIAS e no site BRASILWIKI. Todos os direitos reservados.

Um comentário:

Evaristo Calixto disse...

A postura do Lula em intervir na questão da mulher que cometeu adultério ultrapassa questões diplomáticas, políticas ou de outra ordem material que se apresente. Lula fez isso por compaixão. Esse tipo de atitude, tachada como "sentimental" mundo afora, na verdade é um estímulo para que se revejam perspectivas cristalizadas. Os povos do Oriente Médio não são conhecidos pela compassividade. Aliás, nenhum outro (que eu me lembre), poderia assumir essa virtude, em massa, como a nossa gente aqui. O valor positivo da intervenção do Lula na questão, que passa pelos Direitos Humanos, é muito maior do que podemos imaginar. O buraco é bem mais em cima, pois toca no aspecto espiritual e ético da questão, que tem escapado aos observadores internacionais. Somos nós brasileiros de que devemos olhar para além da questão cultural e nacionalista, e assumir essa liderança. Ponto para o Lula.

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