domingo, outubro 17, 2010

"ABESTADOS" GRAÇAS A DEUS?

Palhaço Tiririca, estadista brasileiro, dá a receita: “Eu 'num' sei ainda, 'mais vô discubri' quando 'tiver' lá 'drento'”. 1,3 milhões de eleitores igualmente risíveis.

Caso eu fosse o presidente da Academia Brasileira de Letras, mandava instalar um “display” de contagem regressiva, o Idiotômetro, bem na fachada do Petit Trianon. 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 e... TOP! TOP! TOP! Um analfabeto a mais no poder.

Então, divulgou-se o Prêmio Nobel de Literatura 2010. Vargas Llosa. Peruano e prosador dos melhores.

Quantos brasileiros? Nenhum. E o Saramago? Quem?! O Saramago! Ele não ganhou o Nobel de Literatura? Infelizmente, tive que ouvir tal aberração de um conterrâneo meu (ora, se ele não fosse paranaense, mas paulista, teria votado no Tiririca). Saramago o quê, perguntei descrente e, minutos depois, mais descrente ainda, tive que ouvir a seguinte pérola do mesmo sujeito: “Agora eu sou contra o aborto porque a Dilma também é”.

Pausa reflexiva na crônica (tema musical recomendado para acompanhar a leitura: “Sangrando” de Gonzaguinha). Somos brasileiros, meu chapa, tão orgulhosos da nossa democracia reconquistada às custas de incontáveis mártires e valas comuns, que chegamos ao refinamento de aceitarmos legisladores analfabetos.

E o Saramago? Escreveu heresias geniais e faturou o prêmio que nenhum autor de língua portuguesa tinha faturado antes. Quanto ao Nobel 2010, trata-se da décima primeira vez que um autor de língua espanhola recebe a distinção. Já entre os latino-americanos, Llosa é o sexto, precedido pelos escritores Gabriela Mistral (Chile, 1945), Miguel Ángel Asturias (Guatemala, 1967), Pablo Neruda (Chile, 1971), Gabriel García Márquez (Colômbia, 1982) e Octavio Paz (México, 1990).

E o Saramago?

Saramago era português. Português?! Sim, português... Burraldo! Claro, para não brigar, falei “burraldo” em silêncio, de mim para comigo. Então, era isto: aquela parte do diálogo que eu costumo chamar de “A raposa e as uvas” tinha chegado. “Pra quê ganhar o Nobel de Literatura se Deus é brasileiro e não desiste nunca da democracia?” O pior estava por vir: as eleições. O Datena e a magnífica imprensa policial brasileira é que estão certos: chamam isso de “desinteligência entre as partes”.

Fé, ignorância e politicagem barata no lugar de propostas. A campanha decepciona. Diversos comentaristas previram que as eleições 2010 seriam marcadas pelo uso da Internet. Bobagem. Uma vez mais, quiseram aproximar a gente dos gringos. Ora, dizer que rolaria um papo-cabeça via banda larga! Está certo: foi uma tentativa. Só faltou um detalhe. Tentem de novo em dezembro, meninos, época das previsões de Ano Novo. E o detalhe é que o brasileiro esculhamba a Internet. Esculhambamos o E-mail, o Orkut, o Blogger e, agora, esculhambamos o Twitter. Obama e concorrentes “twittaram” suas propostas. Aqui, foi a contenda Taliban versus Aborto que invadiu a rede: Serra e Dilma de joelhos como dois garotinhos. Uma pergunta: o Ficha Limpa é uma espécie de curetagem nacional?!

Porre. O mesmo sujeito recontou aquela história do Beethoven. “E se tivessem abortado o Saramago?!”, desafiei. “Nenhum autor de língua portuguesa teria o Prêmio Nobel de Literatura até hoje!”

E o Paulo Coelho?

Em situações como a que vivi naquele dia, o silêncio e o caminho de casa são a melhor escolha.


André Luiz Ferrer Domenciano é farmacêutico e escritor. Membro da ALCAB, Academia de Letras Ciências e Artes de Bandeirantes (PR). Semanalmente, publica sua crônica no blogue AVASSALADORAS RIO , no site LENÇÓIS NOTÍCIAS e no site BRASILWIKI. Todos os direitos reservados.

Um comentário:

Evaristo Calixto disse...

A vitória do Tiririca foi sintoma de algo: o eleitor brasileiro, digo, paulista, quis "protestar". Mas existe o prostesto burro, em que se tenta avacalhar com tudo, na esperança de que no fim dê certo... Uma receita duvidosa. O Tiririca vai poder fazer o pé de meia para a velhice; como nosso país está além e acima de qualquer normalidade, rezemos para que o Everardo pelo menos pince algo do "O Espírito das Leis", de Montesquieu...

Realmente, deveria ser dado mais valor à premiação de José Saramago. Pelo menos por gratidão ao povo português, que emprestou o sangue para que existíssemos.

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