sexta-feira, junho 11, 2010

O ELEFANTE VERDE, AMARELO, AZUL E... BRANCO!

Na Índia, os elefantes brancos recebem sempre um tratamento VIP. Nada de maltratá-los com aqueles incômodos cestos de caça (para o transporte humano) ou aquelas pesadíssimas toras de madeira tão condenadas nas edições da revista National Geographic. O trabalho duro, portanto, cabe aos espécimes tingidos pela mãe natureza. O felizardo que por ventura possuir um paquiderme branquinho deverá abrigá-lo, alimentá-lo e paparicá-lo até a morte. Vender ou abandonar um elefante branco à própria sorte é imperdoável na Índia. Um legítimo elefante branco é tão respeitado por lá quanto a manjada vaquinha. Especialmente, vale dizer, se o animal for um presente de marajá.

Interessante. Vocês não acham? Eis a origem do termo que se usa hoje como sinônimo de obra ou aquisição inútil e dispendiosa.

Campeão da modalidade, o governo de todos os tempos, esferas e partidos deste país deverá se desdobrar para minimizar o impacto das tentações licitatórias durante os vindouros mega-empreendimentos da Copa e das Olimpíadas. A opinião pública brasileira parece cada vez menos idiota e passiva diante das falcatruas institucionais.
 
No mesmo dia em que se confirmou a validade do Ficha Limpa nas eleições deste ano (quinta-feira, 10 de junho), William Waack, do Jornal da Globo, falou direto da África do Sul a respeito da grande insegurança orçamentária dos atuais anfitriões da Copa. “Os sul-africanos investiram muito dinheiro no mundial e ninguém sabe qual será a conta final do investimento”.

Waack é o contra-ponto austero de uma numerosa equipe ufanista e superficial que se encarrega da cobertura da poderosa emissora na África do Sul. O jornalista global fez a melhor avaliação que um brasileiro poderia fazer sobre a distância entre estas duas coisas: (1) conseguir convencer uma comissão organizadora da FIFA ou do COI e (2) realmente possuir os culhões necessários para sediar um grande evento com visão realista e transparência político-administrativa. Cá entre nós: o governo de todos os tempos, esferas e partidos deste país é mais competente e honesto que o governo do presidente polígamo?
 
“A grande novidade é o primeiro trem de alta velocidade do país”, afirma o apresentador do Jornal da Globo, tão grave como se estivesse em Davos ou no Iraque; mas não está. Logo descobrimos que William Waack fala do interior de um dos luxuosos vagões que ligam o aeroporto internacional ao centro de Joanesburgo (Clique AQUI para assistir à matéria na íntegra).
 
Um segundo depois, vemos o jornalista sobre o fio da navalha. Sua pauta não pretendia contrariar as intenções da casa, mas contrariou. Ele adverte que os próximos anfitriões da Copa deveriam tomar a experiência sul-africana como lição. Simultaneamente, milhares de brasileiros torcem o nariz na frente do recém-adquirido aparelho deTV. Em 2014, as imagens reais serão captadas pelos próprios olhos no lugar da realidade Full HD! A Copa do Mundo é nossa! Para o inferno, William Waack; você e as suas olheiras de urucubaca! Tomara que te substituam logo pelo irmão do Oscar Schmidt! E quanto aos estádios (tanto faz se novinhos em folha ou restaurados), um aproveitamento brasileiro pós-mundial será bem maior do que o sul-africano! Ah, bobalhão, e tem as Olimpíadas no Rio! Todos juntos! Vamos! Pra frente Brasil contra os estraga-prazeres metidos a intelectuais!

Bom argumento. Um verdadeiro achado para todo aquele que aprova e se ilude ainda mais quando a Fátima Bernardes e o Galvão Bueno trocam amabilidades verde-amarelas. Afinal de contas, há bola rolando o ano inteiro neste país; os estaduais, o brasileirão, as inúmeras divisões dos estaduais e do brasileirão e, no Rio, é claro, os inexoráveis Jogos Olímpicos... Um sem-número de opções de uso e abuso da infra-estrutura a ser instalada ou aperfeiçoada. Elefante branco?! Aqui? Impossível! Na terra do Mandela, entretanto, a coisa é bem diferente; o dinheiro gasto com esse tipo de infra-estrutura em Soweto parece estar destinado à inutilidade tão logo a Copa termine. O ESPN, por acaso, já transmitiu o campeonato nacional daquele país? Transmitiu? É com você, Márcio Canuto!

Eu não disse?! O contra-ponto de todos eles, William Waack, acertou na ferida! Basta pensar na seguinte verdade: uma Copa do Mundo não é feita só de Maracanãs! Basta que se pense um pouco para derrubar os ufanistas e o seu falso silogismo. Lembre-se, por exemplo, do nosso trem-bala que, segundo consta, ligará muito mais do que um centro urbano a um aeroporto internacional, mas o Rio de Janeiro a São Paulo. Simplesmente, os dois maiores colégios eleitorais do Brasil.

Um comentário:

Pedrão disse...

Não sei nem o que dizer... muito bom! Argumentação muito consistente, irônica e bem humorada! A despeito de todas as precauções e cuidados que devemos tomar diante qualquer evento ou obra tão grandiosa como essa... Yes, a copa do mundo é nossa!
Ah, sobre o som da terra, acertou em cheio! Inhotim o nome do museu. O maior museu a céu aberto do mundo (ou alguma coisa do gênero hauhau)
aquele abraço

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