segunda-feira, abril 19, 2010

AS PULSEIRAS DE MARGOT

O homem tinha uma filha de doze anos a quem fazia questão de ajudar nas lições de casa e, “por tabela”, segundo costumava dizer à esposa, “procurava incutir os valores que a educação formal negligenciava”. Por isso, ele queria chegar logo a sua casa, estar diante da filha e colocar tudo aquilo em pratos limpos. Bruno dirigia. Estava nervoso e dirigia muito, mas o esforço não parecia render. O trajeto nem parecia o mesmo. Do seu local de trabalho, uma famosa concessionária de automóveis, ele gastava pouco mais de uma hora devido à costumeira lentidão do trânsito paulistano. Aquele dia, contudo, apesar do inacreditável desembaraço viário, a sua jornada vespertina se apresentava bem mais longa do que o normal.

Bruno sofria. O conteúdo ensinado realmente importava ou apenas servia para desobrigar a sua conscienciazinha de pai? Jogo de cintura, cálculo nas atitudes, frieza, valentia, preparo intelectual, capacidade de conquistar aliados, enfim, o equipamento indispensável, segundo ele, para se viver neste mundo exigente e competitivo. Tudo apresentado de maneira indireta, no momento da explicação das matérias escolares, ou “por tabela” como ele costumava dizer. Mas a balança dos valores que transmitia inclinava, de fato, para o lado certo?

Bruno era o pai de Margot.

Meia hora antes, no finalzinho do expediente, o bem-sucedido vendedor de automóveis conversava despreocupadamente com um dos novos empregados da concessionária. Falavam de algumas notícias que, nos últimos dias, estremeciam o país e também de outras que, a despeito da importância, desapareciam nos rodapés da mídia.

“É verdade rapaz”, tinha dito Bruno enquanto desligava o computador. “A votação do projeto de lei ficou no segundo plano... Longe do destaque, o trabalho de mobilização popular sofreu um golpe. Não foi desta vez que a proibição da candidatura de políticos 'fichados' virou lei. Como é ano de eleições, está muito bom para os mensaleiros do PT.”

“O senhor tem razão mestre Bruno”, tinha concordado o rapaz. “A população ainda está distraida demais com o Rebolation. Desde o Carnaval, não se pensa em outra coisa. Mestre Bruno, diga a sua opinião!” Como todo bom discípulo, mais escutava do que falava.

Mestre Bruno era incrível. O melhor vendedor de carros de toda a rede autorizada. Inúmeros novatos como aquele passaram pela unidade a fim de aprender as artimanhas do papai da menina Margot. Mestre Bruno, campeão de vendas por cinco anos consecutivos. “Inacreditavelmente”, dizia-se quando o viam. “Entre a crise do governo Collor e o segundo mandato de FHC, não perdia uma venda!” Era simplesmente imbatível de acordo com o folclore da empresa. Cliente que primeiro esbarrasse nele metia logo as duas mãos no bolso! Desta forma, todo novato mais ouvia do que falava na sua presença, fosse por instinto ou reverência. Especialmente quando Bruno opinava.

“Rebolation, terremoto no Haiti, desabamentos no Rio de Janeiro, serial killer goiano... O quê mais?! O quê mais?!”

“O caso das pulseirinhas do sexo!”

“Como é?”

“Mestre! As pulseirinhas do sexo!”

“Eu não sei do que se trata.”

“Pode deixar. Eu explico.”

Explicou.

Desde aquele momento, isto é, pouco mais de cinquenta minutos atrás, Bruno refletia sobre as lições que ministrava em casa.

Na marginal Pinheiros, o trânsito corria milagrosamente bem, mas demorava. Demorava tanto! Bruno queria saber se o bracinho das outras meninas, coleguinhas de Margot, também perdiam gradativamente, a cada novo dia, uma parte do variado e insidioso colorido que costumava exibir.

“Mestre”, tinha dito o novato. “Parece inocente, mas não é! Cada cor representa um 'prêmio' que a menina deve dar ao garoto que arrebentar a pulseira.”

“Prêmio?! De quê tipo?”

“Sexual.”

Agora estava no contorno do bairro onde morava. Bruno começou a tremer. Na concessionária, logo depois que tomou conhecimento do “jogo”, disfarçou e caminhou para o refeitório. Sentia-se doente. Encontrou um punhado de sal e colocou embaixo da língua. Estava profundamente chocado, mas ainda teve forças e voltou ao escritório, religou o computador, pesquisou no Google e imprimiu a lista que relacionava as pulseiras com as mais criminosas recompensas.

Quando estacionou diante da casa, tirou a folha do bolso e respirou. A última coisa que Bruno queria era bancar o injusto, cometer um erro. Então, ele pensou de novo na tarde que haviam estado no shopping. O dia em que Margot entrou numa loja e comprou todo um sortimento daquelas pulseiras. Tinha certeza. Três ou quatro semanas atrás. Tinha sido no shopping e, infelizmente, Bruno também tinha certeza de que , desde então, a cada dia que passava, exatamente à hora do dever de casa, faltavam pulseiras no delicado braço da filha. Era observador. Estava longe de cometer um erro a respeito. Na verdade, convencia-se de que já cometera vários.

A entrada relâmpago de Bruno assustou o caçula de dois anos que brincava no tapete da sala. Perplexa, a mulher foi atrás. Mas que folha era aquela?! Um boleto bancário que, por acidente, alguém deixara no porta-luvas do carro?

“Jogo de cintura, cálculo e frieza”, disse Bruno consigo mesmo quando abriu a porta do quarto da menina. “Filha, venha cá e mostre o braço! Agora!”

Decepcionado, ele descobriu que o número de pulseiras diminuíra drasticamente.

“O quê foi meu bem?”, a esposa chegava.

Indiferente, o homem checava os exemplares que haviam sobrado e, a um só tempo, consultava a lista de recompensas.

“Azul. Preta. Minha nossa! E a grená? Grená... Aqui. Graças a Deus! A listrada! Marrom. OK! Transparente. OK! Dourada... OK! Graças a Deus as piores ainda estão aqui! Graças a Deus! Mas eas outras Margot?!”

“Bruno!”, fez a mãe. “Mas que diabos é isso?! Veja só o seu estado!”

“Sabia, mulher, desta história? Não! Então, examine a lista! Vamos! Dê uma olhada na lista!”

“Não briga pai. Não briga com a mamãe por minha causa.”

“Então diga, filha, diga para o seu pai: aonde foram parar as outras pulseiras?”

“Ah, pai, lembra daquela vez que o senhor estava me ensinando Matemática? Lembra?! Se a gente paga um e vende por dois, a gente lucra. Não é mesmo? Outro dia, o senhor também contou aquela história da oferta e da procura... Lembra?! Então. Eu tive lucro. Pena que há dois dias ninguém mais compra destas pulseiras lá no colégio! Quantas encalhadas no meu estoque... Veja só! É por isso que eu vou dar desconto. O quê o senhor acha?! Diga pai. O quê o senhor acha de, a partir de amanhã, na hora do recreio, eu abrir uma liquidação?”

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Crônica publicada nas páginas AVASSALADORAS RIO e TALENTOS WIKI no mês de abril de 2010 - Todos os direitos reservados a André Ferrer

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