sexta-feira, março 19, 2010

OI MENINAS, ALGUÉM AÍ JÁ PERCEBEU A TRAMÓIA?

Este aqui é o ano dela. Em 2010, graças à Dilma Rousseff, aquela pitada de Arriba Guevara! volta com tudo. Cláudia Abreu – sacaram? – na minissérie Anos Rebeldes.

Só não sei se vai emplacar depois das vergonhosas arremetidas do Governo em relação à abertura dos “arquivos”. Será que os publicitários do PT vestirão a boina vermelha tão explicitamente na candidata?

Antes de tergiversar, dirijo algumas perguntas aos Dudas Mendonça e similares.

Que arquétipo é mais poderoso: Self-made-man do ABC Paulista ou Guerrilheira Ilustrada? Qual dos dois é o mais eficaz, a ponto de induzir ao voto, no imaginário dos eleitores, ou melhor, das eleitoras? Sim. Eleitoras. Uma vez que, neste caso, “rola” um certo “corporativismo do gênero feminino”. Ah! E, também, se possível, respondam: qual dos dois é o menos patético? Hein?!

Boa hora para tergiversar.

O Dia Internacional da Mulher teve origem socialista mas, nem por isso, as meninas engajadas merecem o gigantesco desrespeito à inteligência que se anuncia.

Em 1917, as comemorações referentes à data inflamaram os ânimos e acarretaram a famosa Revolução Russa. Ocidentalmente, a data foi comemorada entre 1910 e 1920, esmorecendo até que a contracultura e o suspiro socialista dos anos de 1960 e 1970 revitalizaram-na. Cá entre nós: a mulher não merece ver o seu “espírito de luta” convertido numa caricatura neo-bolchevique em pleno Século XXI. Merece?

Há nove anos, previa-se que o filão “sexo frágil” seria explorado pela presidenciável Roseana Sarney. Felizmente, não aconteceu. A mala – sempre a mala – cheia de grana suspeita (R$ 1.340.000,00 não-declarados) impediu a candidatura da Princesa Herdeira do Maranhão.

Desta vez, no entanto, é inevitável - e com o agravante de que toda a “coleção de lugares comuns do feminismo mais primitivo e equivocado” vem ao lado de toda aquela “balela do proletariado contra”... Contra o quê mesmo!? Capitalismo? Neo-Liberalismo? Racionalismo? Inteligência?

Trocando em miúdos: uma versão ampliada e super-produzida deste vaudeville chamado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) anuncia-se atrás do fresco e verdejante promontório da Copa do Mundo.

Façam-me um favor meninas: pensem com carinho no assunto! Votem na Dilma Rousseff. O problema não é este! Mas não votem nela só por causa do sexo e daquele passado, digamos, revolucionário. Capisce? O Zé Dirceu – lembram dele? – também lutou contra os milicos, atirou neles, ateou fogo neles, jogou lama na autoridade deles e a Roberta Close também é mulher.

Entendem a diferença? Ela é gritante mas, por incrível que pareça, milhares de roceiros espalhados por este país pouco ou nada se importam, fascinados com os fogos e anúncios itinerantes: “Atenção! Esta noite! Nesta localidade: ESTRÉIA!” O circo de horrores encanta. Desperta velhos preconceitos numa terra onde muitos ainda creem que a solução está nos braços fortes de uma ditadura. “Noventa e cinco por cento roça”, o Brasil que nunca soube de toda a verdade sente saudades dos Atos Institucionais e de toda a sorte de siglas trevosas, DIP, DOPS, DOI-CODI, SNI – livre-me, Deus, de tudo aquilo! – instrumentos pavorosos que, de Getúlio a Sarney, funcionaram em nome da violência e da hipocrisia.

Da surreal Sucupira de Dias Gomes àquela Cidadezinha Qualquer de Drummond: alheiamento, desfiles agaloados e Jovem Guarda. Quem sabia, sumia. E, agora mesmo, instantes atrás, ocorreu-me um ditado iugoslavo muito espirituoso: “Fale a verdade e saia correndo”.

Quando a década de 1980 expirava, dona Helena (é pseudônimo), a minha professora de História da sétima série, costumava ter crises de nostalgia em relação ao Regime.

Cidade pequena. Duas décadas antes, os grandes jornais chegavam de trem. A banca da praça, conforme ainda ensina o cancioneiro local, recendia a esterco e Manteiga Aviação. Era dessa forma que as manchetes de um país “que vai pra frente” chegavam. Leia-se: Tradição, Família e Propriedade à salvo dos abutres e degenerados moscovitas. Bilac! O quê faz Olavo Bilac entre as notícias? Ora, um pouco de cultura não faz mal a ninguém! Ouvir estrelas molda o carater da próxima geração-rebanho!

“Estrelas do céu?”

“Jeca, perdeste o senso! Estrelas de general.”

Dona Helena “estudava para professora” na década de 1960. Formou-se nos 70 e entrou nos 80 com uma tripla jornada no lombo. Ganhava bem. Ganhava o dobro para trabalhar a metade. Virou merendeira, dona de casa e analfabeta em Filosofia. Depois de algum tempo, chorou na frente da TV e descobriu muitas coisas chocantes. Entre elas, que a década de 1990 corria solta e Cláudia Abreu tinha virado guerrilheira e morrido. Sentiu-se viva e completamente engajada. Filiou-se ao PT. Nem desconfiou que “enganada” é que era o termo.

Na sala de aula, reinventou a roda. Sentia um prazer piagetiano, diariamente, vendo a roda girar. Quando Sassá Mutema ressuscitou no Vale A Pena Ver De Novo, ela escreveu uma nota de protesto. Enviou por SEDEX para o Lima Duarte. “Grande ofensa, velho canastra; ofendeste a esperançosa e confiável imagem do homem público que vem de baixo.” Ah! Bons tempos aqueles! Do avental enfarinhado, lembro-me bem. O mais cobiçado número da Playboy – a edição de aniversário com a Musa do Impeachment na capa – morreu na praia, nunca existiu, legiões de onanistas decepcionados – inclusive eu – tiveram que se consolar com as páginas amarelas da Revista Veja. E teve, ainda, o Loro José, marido da dona Helena, que passou no concurso da OAB e se mandou para Petrolina com uma tal de Julinha Manicure, quinze anos mais nova, crismada e com Carteira de Identidade própria. Sim! A coisa foi punk. Um vexame devastador que revoltou dona Helena pelo resto da vida. Nos anos 90, o rosto do filho cheio de tinta guache, ela propagandeava saudades da ordem pública e do Fleury, o delegado das trevas. Homéricas nostalgias, também, da velha guarda da União Nacional dos Estudantes (UNE). “Por onde andam as cabeças rachadas?” Upa, cavalinho! Casa da Dinda, cacetete e escudo. Aaaah! Os anos 90!

“Antigamente”, dizia ela. “Eu até saia de casa com as minhas jóias! Tinha segurança naquela época.” Vala comum. Esquadrão da Morte. O Garibaldo da Vila Sésamo... Não é mesmo? Ah! Fico embasbacado num cenário assim, meninas, e ainda mais com os personagens que encontro de vez em quando.

Nas ruas, no trabalho, na padaria do seu Cascaes, eu ainda topo, de vez em quando, com determinado senhor distinto, membro importante do Lions Club, ícone da hipocrisia campestre! Um roceiro. Um Pinochet de estrebaria que ainda usa vaselina e mantém os cabelos simetricamente repartidos. Dá para imaginar, meninas, a província inteirinha refletida nas lentes daquele Ray Ban Modelo Caçador? E as botas de montaria! Fico embasbacado, a princípio, e aí desato a rir. Sabem o porquê? Quando eu era criança, vi uma cena hilária no Jornal Nacional: João Baptista Figueiredo com as pernas para cima. Caiu do cavalo em pleno horário nobre.

Meninas, eu sempre gostei do Jornal Nacional para essas coisas. Houve, é claro, a versão Pop Collorida e Mauricinha do velho macho presidencial. Lanchas, carrões importados, motocicletas e até avião da FAB! Este também caiu. Hipoteticamente, menos um salvador da pátria sobre o cavalo. Hi-po-te-ti-ca-men-te.


Nesta cidade, acreditem vocês, o único sessentão que realmente subverteu alguma coisa quando jovem hoje vive às custas de Lexotan. O requinte de crueldade não existiu. As torturas e a viagem à Lua jamais existiram e não passam de trucagem do insaciável Vilão do Norte. “Fora cabresto! Esclarecimento é tudo. Luz na ignorância!” E por acaso, meninas, eu já falei sobre o outro dia, por ocasião da última grande feira agropecuária, quando todo mundo ficou ilustrado? Sim! Teve um parque de diversões, o vaudeville itinerante do crescimento ilusório. Tinha um homem que bebia álcool e cuspia palavras e mais palavras, porém, muito misteriosamente, nenhuma letra “esse”! Mulher barbada. Uma multidão de eternos palhaços. O populacho... Ah! Esse aprendeu mais coisas na tenda da Monga do que na escola. DOI-CODI? Choque na glande? Continental aceso no dorso do pé? E mamilo retorcido com alicate?! Tudo ilusão de ótica. Truque de luz e sombra meninas!... Meninas. Alguma de vocês já percebeu o jogo de espelhos? Lembrem-se, por favor, de pensar carinhosamente no assunto! Abandonem a consciência popular sobre a esquerda e a direita, o machismo e o feminismo, o feijão e o pé-de-feijão. Coisas de roceiro maniqueista! Prestem atenção: o maniqueismo do roceiro elege pilantras! E, neste mundo, quem é mais maniqueista do que roceiro? Noite, dia, chuva, sol, planta e colhe, feijão e pé-de-feijão, sabem como é. Gente assim tranquila e alheia! Gente que só se tocou – imaginem! –, anos depois, quando a Cláudia Abreu morreu dramaticamente sobre o capô de um VW Zé do Caixão! Gente adestrável. Prato cheio de inocência para matar a fome da bandidagem.

Tergiversei. Às vezes é bom fazer isso e depois voltar ao assunto.

Publicitários, a minha última pergunta envolve arte. Não é indiscreta. Ouvi dizer que publicitário adora ser confundido com artista: um toque “cult” no legado de Joseph Goebbels! Ora. Chega de tergiversação. A minha pergunta: Será que o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (CONAR) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aceitariam todo aquele festim e sangue cenográfico?

Nem o PAC seria tão convincente para o fã-clube da Monga, A Mulher Mutema.

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Crônica publicada em março de 2010 na coluna SURRA DE GRAVATA da página AVASSALADORAS RIO - Todos os direitos reservados a André Ferrer

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