sexta-feira, março 19, 2010

CONTINHO QUARESMAL

O humor é a quebra da lógica. Henri Bergson, filósofo francês (1859-1941)

Na Quarta-feira de Cinzas, acordei sartreano até a medula. Na padaria, entre sete e meia e oito, respirei fundo e tentei evitar o inferno. Trocando em miúdos: coloquei o outro para correr.

“Se o sr. acha!”, respondi.

O homem recuou. Queria o quê? Saber do meu feriado insípido? Divulgar o feriadão passado no Guarujá? Bom dia?! Eu respondi:

“Se o sr. acha!”

Veja bem: quando se trata de um “bom dia retórico”, daqueles que os arrogantes usam para bisbilhotar a gente, é a melhor resposta. Graciliano Ramos fazia isso e, segundo a lenda, tomou-o como hábito saudável até a etapa final do seu câncer.

Minutos depois, em casa, o rádio incomodou.

“Se o sr. acha que comer proteína é pecado, evite morder a língua durante a Quaresma.”

“O quê foi André?”

“É o padre. Estou falando com o padre.”

Minha mãe entendeu direitinho. Desde muito pequeno, eu questiono o jejum quaresmal. Proteína é indispensável para o desenvolvimento. Gente com deficiência proteica é fraca de corpo e neurônio. Gente que não come boi vira gado.

“Sartreano.”

“Hein?!”

“Hoje eu estou nauseado.”

“Ressaca do Carnaval.”

“Que nada, mãe, foi o Zé Prosódia.”

“Na padaria?”

“Comecei mal...”

“Ele viajou de avião?”

“Viajou.”

“Quanta paciência!”

“E agora mais essa!”

“Quem sabe, André, uma penitenciazinha não afaste os maus espíritos!”

“Ah mãe! Em primeiro lugar, a fila do açougue diminui bastante nesta época do ano. E depois... 'O filé mignon precede a essência!' O que vale mesmo, no final das contas, é a nutrição. Gado, aqui, deve ser alimento e jamais estilo de vida! Hoje estou sartreano demais! A senhora notou? Até a medula!”

O resto do dia foi aquilo: Existencialismo xiita e um incenso de picanha maturada no ar.

Na minha cabeça, ciclicamente, o Zé Prosódia distribuia felicitações matinais enquanto eu pagava doze francesinhos borrachentos e aguardava o troco diante da Greice (ocupação da Greice: além de caixa, faz-tudo de padaria). Eu não consegui me livrar da cena até o anoitecer. Mas venci! No meu caso, pelo menos, o inferno foi amenizado pela cartase da escrita. Muito persistente, o pescador de otários arremessou outro engodo. Uma senhora educada correspondeu. Reclamou da artrose. O danado atacou:

“No Sofitel Jequiti, lá no 'Gurujá' - onde eu 'tava' no Carnaval -, existe um spa muito chique!”

O meu troco Greice. O meu troco... Faltou. Vai, então, apanhar o meu troco. Ela foi. O patrão da Greice lá nos fundos, queimando a cara no forno a lenha.

“Noooossa!”, disse a mulher que marcara bobeira com o Zé Prosódia. Sem poder fugir, toda emperrada, ela mordia as iscas do emergente.

Greice, por favor, volte logo. Zé Prosódia foi de avião. “Medo? Que nada! Os 'avião' tem muita segurança!” E assim por diante. Comeu mais dois “esses”. O itinerário ficou medonho. “Teve três 'praia' que a gente 'fo...MOS'!” Nada, não, Greice Kelly. O troco está certo. É que, às vezes, excesso de plural torna-se risível. Liga não!

“Gastei três mil 'Real' sem 'pobrema'! Voo tranquilo até Londrina. Depois do 'chequim', bebi um pingado.”

Não se trata de um novo rico, mas de um novo medíocre. Zé Prosódia ingressou na classe média. Quem chamá-lo assim, de novo rico, cometerá um engano. Sim, porque pobre gosta de novo rico. Pobre ama novo rico como carro popular! Novo rico, aliás, pode ser comparado a cargo público. Dá IBOPE na “perifa”! Já o Zé... Do Zé ninguém gosta. Mano Narciso, por exemplo, que diariamente se vê belo e bacana na TV, fugiria para bem longe antes de se atirar na própria imagem grafitada na moto-link do Datena. “Direto da 69ª DP.” Esperança e consolo no programa do Amaury.

Novo rico não escandaliza pobre como agora fazem esses novos medíocres. Pelo contrário, novo rico é sonho de consumo. É “intenção” de pobre em Juazeiro, Nova Trento e Aparecida.

Novo rico incomoda os Guinle. Zé Prosódia incomoda gente como o seu Pedro Manuel Cascaes, dono da padaria Cascaes, um herói aposentado - na verdade, um otário que ainda chamusca o rosto e a psoríase numa fornalha de lenha. Zé Prosódia incomoda pessoas de todo gênero, número e grau. Incomoda a Greice (nome completo: Greice Kelly Christina da Silva), que tem filhos de três pais numa só cidade. Incomoda a mim, que sou pobre e... Os Guinle, os Matarazzo, os Almeida Prado. Aliás, para quem nasceu majestade, emergente é emergente. Novo rico ou novo medíocre, tanto faz, dá no mesmo! Sob a ótica quatrocentona, emergente jamais combinou com bourbon. Veuve Clicquot com cafonice é o leite com manga do Club Méditerranée: vira estriquinina depois de ingerido.

Quarta-feira de Cinzas. Dia impróprio para o ócio mental. Liguei de novo o viva-voz do meu cérebro. Vinte e uma horas e quarenta e cinco minutos. “Dona Ruth Cardoso morreu. Pena. Trata-se de um fenômeno que a Sociologia precisava estudar!”

Claude-Levi Strauss também já se foi... Michael Jackson. Ibrahim Sued. Todos os Papas anteriores ao Ratzinger... Clodovil Hernandes... Enfim: a novíssima “casta” brasileira dificilmente atrairia pessoas que comeram ou não carne quando criança. Nem o perneta que faz ponto na rodoviária sente fascínio pelo Zé Prosódia. “Vem aqui seu chato”, diz o mendigo, muleta nas axilas, malajambrado, bebum e irônico. Desafia: “'Colossais! Diatribes! Prosopopeia!' Ooooh, seu analfabeto, diga: 'prosopopeia'!”

“Cachaceiro desavergonhado! Agora corre?! Olha como corre numa perna só!”

Mesmo aquela senhora, pobrezinha, toda inevitavelmente ouvidos na padaria, correria. Com as juntas bem azeitadas, ela saltaria longe do tratamento “chique” do Sofitel Jequiti. “Gurujá” e incongruências verbonominais não teriam a mínima chance com ela se não fosse a decrepitude articular avançada. Coitada. Tão derruída! Expiou os pecados para muitas gerações futuras na manhã da Quarta-feira de Cinzas. Pode comer rodízio minha senhora. Regozija-te antes do fim! Cupim e alcatra estão liberados.

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Publicada em fevereiro de 2010 na coluna SURRA DE GRAVATA da página AVASSALADORAS RIO - Todos os direitos reservados a André Ferrer

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