sábado, fevereiro 20, 2010

O ANO EM QUE A IVETE BOICOTOU O CARNAVAL










“Será que é dublagem André?” disse meu pai. “Olhe aquela roupa apertada.”

“As pernas é que estão bem soltas pai.”

“Em cima, tudo preso, mas embaixo... Responda: quem, neste mundo, conseguiria cantar nas condições da moça? É playback. Só pode ser gravação”.

Janeiro de 2010. Quente madrugada. Festival de Verão de Salvador na TV.

Em 2007, perto do Natal, seu Paulo chamou Roberto Carlos com rosa e tudo de nazista. Meu pai sempre foi contundente assim. Ele nunca perde uma oportunidade de se colocar ao lado de quem julga oprimido. Mesmo que seja o ventre de uma famosa cantora de axé.

“E o advogado dele?!”, tinha dito meu velho, em 2007, ao som de Os botões da blusa. “Se o próprio Hitler quisesse contratá-lo, aceitaria. Dou-tor-zi-nho safado. Foi isso que aprendeu na escola?”

Seu Paulo é o Carlos Lacerda da família. Na ocasião, fazia comentários a respeito de outro Paulo, Paulo César Araújo, o injustiçado da vez.

Sem dúvida alguma, biógrafos como Araújo, que tiveram problemas com o fascismo velado e ativo na sociedade brasileira, estariam fritos, em 1954, na rua Toneleiros.

Na ocasião, Carlos Lacerda escapou de um atentado. No lugar dele, quem sucumbiu foi Rubens Vaz, um jovem major da Aeronáutica. Deus o tenha.

Para os esquecidos da História recente, Araújo é historiador e autor de “Roberto Carlos em Detalhes”, biografia proibida há três anos.

Em janeiro de 2007, Roberto Carlos alegou invasão de privacidade. Fazia um mês desde o lançamento da obra, ainda em 2006. Enfim. Debates acalorados, negociações e.. Rosas. Para o Rei, pelo menos para o Rei, tudo acabou em rosas. Em todas as livrarias do país, o livro foi recolhido.

“A História é cíclica, mas o homem muda.”

Lembro-me muito bem dela. Minha professora de História. “Galileu morreu cego em 1642, mas antes de morrer disse: 'Eppur si muove!' que, em Português, quer dizer 'No entanto, ela se move!'” Como assim? Quem ou o quê se move? Para onde? Uma imensidão de dúvidas, anos a fio, provavelmente assombrou aquela classe de coitados. A propósito, sempre que o meu pai ataca com aquele seu “foi isso que aprendeu na escola?”, lembro-me da dona Helena (é pseudônimo), a professora de História da sétima série. Física e intelectualmente parecida com a Ana Maria Braga, tinha a sapiência das pessoas que dialogam com pássaros de espuma e têm mão boa para sal.

Dona Helena também era merendeira. Chegava de avental à sala de aula, dizendo que a Democracia já existia na sua forma mais primitiva no Egito antigo: 500 lategadas por bom comportamento em vez das costumeiras 1000! Depois eu descobri que ela ganhava em dobro como professora, mas dava só a metade das aulas. Conclusão: aprendi com ela a estudar História. Comida, esperteza e sangue. A História é cíclica, mas os adereços mudam. O homem regride. Conversa com pássaros de material sintético. Chama de Liberdade algumas chibatadas a menos.

Há quem diga o seguinte: a História é um ciclo de crimes, arrependimentos e ajustes. Em miúdos: é preciso estudar os erros de outrora. Simples assim. O fato de Hitler suceder Napoleão na linha do tempo é tão-somente um caso de amnésia coletiva. Os alemães não tinham memória. Os brasileiros também não se lembram de muita coisa. Por exemplo: aonde andaria o vírus H1N1? E a celeuma que a transposição do rio São Francisco rendeu? Aquele beato ainda estaria em greve de fome? Fome. Por falar em fome: o que tem pra comer? “Acho que hoje temos canjica.” Dona Helena tinha poucas certezas. Ela ganhava em dobro e viajava mais do que as outras professoras. Uma vez foi à Brasília. Mostrou no mapa o Planalto Central. Dava para sentir a segurança dela naquele instante. Começava na ponta dos dedos e terminava, quem sabe, em alguma questiúncula para a prova bimestral.

Em abril, a Capital Federal completa 50 anos.

José Roberto “Panetonegate” Arruda, governador cara-de-pau do DF, tentou incluir o Rei Roberto na maior e mais descarada operação lixo-sob-o-tapete que a História brasileira já registrou.

“Houve o convite para o show e chegamos a considerar a possibilidade”, disse o empresário do Rei à imprensa. “Mas o convite foi feito pelo comitê de José Roberto Arruda. E decidimos interromper o contato.”

De acordo com Dodi Sirena, que agencia o cantor, a crise no DF, até agora sem desfecho, causa indignação em todos os brasileiros. “E há uma prova de que houve desvio de dinheiro público.”

Parabéns RC! Às vezes também é bom evitar a cor do dinheiro como quem evita o marrom. Seria pouco bacana sujar o mês do seu aniversário com a cor desse lamaçal.

19 de abril, 1941, Espírito Santo, Cachoeiro do Itapemirim, nasce Roberto Carlos Braga.
Em Brasília, naquele ano, só existia calango. Nem a própria Brasília existia. Lugar insolado (ou isolado, tanto faz), que os geógrafos chamam de savana quando há leões ou de cerrado quando há goianos e pequi com quiabo.

Na década de 1940, a Capital era outra e Carlos Lacerda já confrontava o poder useira e vezeiramente no rádio e na imprensa escrita. Carlos Lacerda: o paladino das vítimas do caudilho são-borjense! Jornalista. Político. E antibiógrafo do Presidente da República Getúlio Dornelles Vargas (1882-1954). Isto mesmo: na minha opinião, Carlos Frederico Werneck de Lacerda (1914-1977) foi também o mais bem sucedido caso de bióbrafo não autorizado neste país. Ele fragmentou a crítica. Não reuniu material em livro. Livro para quê? Para ser proibido? Recolhido das prateleiras? Que nada! Ele produzia uma biografia folhetinesca e imaterial de Vargas. Era esperto. Aproveitava a contingência jornalistica e as efêmeras ondas do rádio. Não caiu na besteira de dividir o seu “produto explosivo” com a indústria editorial. Não, pelo menos, naqueles anos.

Na época, vale dizer, as coisas eram resolvidas fora do judiciário e longe dos mandados de busca e apreensão. O calabouço comia solto na Capital Federal. Gente do naipe de Graciliano Ramos, Raquel de Queiros e Monteiro Lobato não escaparam. A Capital era o Rio de Janeiro. Sem ponto eletrônico, todo o mundo político do Catete e vizinhanças ia despachar nas pernas das vedetes da Urca. Entre doses de gin, carteados e espacates da Virgínia Lane, encomendavam-se mortes e “puros habanos”.

Além de gênio, foi safo. Calos Lacerda tinha a natureza do alvo móvel. Não se deixou abater e constitui bom exemplo para os biógrafos não autorizados de hoje.

Ironicamente, no ano da graça de 2010, é Roberto Carlos quem dá o exemplo. A classe dos artistas bem sucedidos deveria cair na real e tomar atitudes mais efetivas a respeito da ética. Não basta ser Ministro da Cultura, ir ao Criança Esperança e bancar o engajado no Domingão do Faustão. Pare com tudo Ivete. Negue a festa que eu quero ver! Negue a festa, negue, negue, neguinha, que eu quero ver! Negue, negue, ah! Negue, negue, lê! Negue, negue, aiê!

“Neste mundo, filho, quem conseguiria cantar nas condições da moça?”

“Deve ser gravação.”

“Já vai se deitar?”

“Estou com sono.”

“Boa noite.”

I have a dream! E no meu sonho a Ivete Sangalo deixa de ganhar milhões e boicota o Carnaval em nome da ética. Sob a inspiração do Rei Roberto Carlos, tudo entre o Pelourinho e o mais lucrativo trio-elétrio simplesmente para de funcioncionar. I have a dream. E no meu sonho de uma noite mal dormida de verão, a verdadeira cartase não acontece só depois do Carnaval, na Quarta-feira de Cinzas. Acontece antes, com a tetraplegia engajada do Momo. I have a dream. Unzinho só numa vida inteira de Carnavais e grana, muita grana! E no meu sonho Ivete Sangalo aparece sem pernas (está de calças). Ela não canta. Ela apenas diz e repete com veemência: “Aqui não, Arrudão, nem você nem o finado Tonhão!” Tudo para. Centenas de oligarquias de usurpadores, coronéis e painhos fazem voltas no túmulo sob o silêncio abstinente da Bahia. I have a dream. Ivete para de ganhar dinheiro e deposita notas “musicais” no refrão: “Aqui não, Arrudão, nem você nem o finado Tonhão!” I have a dream. São 365 dias sem um único ilê-aiê! I have a dream. Como é decente ganhar dinheiro com um pouquinho de responsabilidade social! Acordei. Finalmente acordei, fui trabalhar e passei a manhã inteira decepcionado.

Hora do almoço. A mesa posta. Seu Paulo termina de descrever a performance assistida de madrugada na TV. Ele mastiga e engole. Depois conclui: “É de parar o trânsito.”

Risos da Carla. Minha mãe balança a cabeça e desdenha. O Carnaval nem tinha chegado, mas a Bahia, no entanto, movia-se.


Publicada em fevereiro de 2010 na coluna SURRA DE GRAVATA da página AVASSALADORAS RIO - Todos os direitos reservados a André Ferrer




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