terça-feira, fevereiro 09, 2010

LEITURAS DE VERÃO

“Networking e troca de favores. Onde termina um e começa o outro?”

“Sinceramente”, eu respondi. “Ainda não consigo ver a diferença.”

Quem perguntou foi a minha esposa, Carla, que acabou de sair da universidade. Ela se formou em dezembro e já sente na pele a selvageria do mercado. Eu repito: na pele, uma vez que indiretamente, observando e compartilhando a vida de cão do seu marido aqui, Carla já sabia muito bem o que a esperava depois da colação e do baile.

“Onde mesmo termina um e começa o outro?”

Drª Lígia. Socorro. Invejáveis em potencial, equilibramos o corpo sobre o fio da navalha. Temos a resposta! O trabalho em grupo deve ser abolido da minha longa lista de idiossincrasias. Quem conhece, afinal de contas, tem maior responsabilidade sobre os seus atos. No ignorante, a culpabilidade é diretamente proporcional ao conhecimento.

Movido pela força do hábito (um entre dezenas de velhos hábitos que, prometo, farei o possível para abandonar), eu quase chutei o pau da barraca sem refletir. Por isso, desconsidere, Drª Lígia, os três parágrafos adiante.

§ 1º Pouco importa se a ideia do networking nasceu em algum departamento de RH do Vale do Silício ou no cancioneiro popular.

§ 2º O fato é que networking e andorinhas sempre me inspiraram desconfiança. Nem o sucesso profissional nem o verão, no meu caso, estiveram na dependência de uma estratégica e coordenada rede de contatos. Se bem que a minha ideia de sucesso e de verão nem chega perto daquela ostensivamente celebrizada pelo cânone. Uma parelha de pobres coitados para arrastar a minha biga dourada? Quem precisa disso? Muitos. Eu sei. Basta saber identificar no termo networking o mais contundente dos eufemismos.

§ 3º Pensasse diferente, o meu sucesso já seria estrondoso. Meus verões então!... Ah! Meus verões e lugares como Lençóis Maranhenses, Porto de Galinhas e Costa do Sauipe teriam, de fato, muita coisa em comum. Em termos gerais, a vida seria bem diferente se a minha desconfiança em relação ao genuíno trabalho em equipe simplesmente não existisse.

Imperdoável. Agora, mais do que nunca, eu sei que não é assim que se pensa. Reinventar-se é preciso. Segundo a Drª Lígia: “Quem não se recria age do mesmo modo: voa alto com o seu talento, até encontrar uma situação diferente da habitual. Então, por não saber utilizar sua capacidade de modo diferente, acaba limitado por situações que poderiam ser resolvidas com facilidade”.

O Segredo Dos Invejáveis, de Lígia Guerra (Editora Gente, 104 páginas) faz melhores as pessoas. É um livro que cobra. É um texto que ensina.

Jorge Luis Borges (1899-1986) costumava dizer que a releitura de alguns poucos livros essenciais, ao longo da vida, é mais importante do que a leitura profusa de novos livros.

Houve um tempo em que aforismos assim também figuravam no rol das minhas idiossincrasias. Foi antes de um certo verão daqueles. O meu dinheiro não dava para comprar o romance da moda, numa livraria da moda, e eu acabei entrando num sebo onde comprei um velho dicionário de citações.

Quanto a Borges, eu acredito que já estivesse doente e cego quando começou a dizer tal asneira ou, quem sabe, quisesse despistar os imitadores do seu estilo que, na época, já começavam a medrar pelo mundo. Um homem de biblioteca, certamente, ama o acervo, mas também se abre aos novos exemplares. E Borges nasceu e cresceu numa biblioteca sem portas e com infinitas estantes. Ele queria todos os livros possíveis. O Aleph. A primeira e a última página. O tigre.

Naquele instante, o casal de andorinhas fugiu e alcançou a coordenada e negra massa voadora diante da varanda onde estávamos. Queriam fugir, quem sabe, do meu tigre borgeano.

Eu acordei. Esqueci o tigre e respondi; ainda com os olhos na imensa e barulhenta fábrica de verões, eu respondi a pergunta que a minha esposa tinha feito minutos atrás:

“Sinceramente. Não vejo qualquer diferença.”

“Preste atenção André! Ouça que maravilha: ‘Na parede do seu consultório, Billy tinha uma oração emoldurada que expressava seu método para seguir em frente, muito embora ele não tivesse muito entusiasmo quanto à vida. Muitos pacientes que viram a oração pendurada na parede de Billy disseram que ela os ajudara a seguir em frente também. Era assim: DEUS ME DÊ SERENIDADE PARA ACEITAR AS COISAS QUE NÃO POSSO MUDAR, CORAGEM PARA MUDAR AS COISAS QUE POSSO MUDAR E SABEDORIA PARA SEMPRE SABER A DIFERENÇA.’ Não é ótimo?!”

Foi numa tarde dessas depois do trabalho. Carla também já tinha lido O segredo dos invejáveis e agora lia Matadouro 5, romance do escritor norte-americano Kurt Vonnegut (1922-2007), um clássico da contracultura (L&PM, 232 páginas).

Repentinamente, os pássaros mergulharam e se chocaram contra uma segunda massa negra e amorfa que, bastante crescida, penetrou na copa de uma árvore.

Matadouro 5 foi um presente de Rafael de Castro Caetano, jovem jornalista de Osasco, São Paulo, e poeta promissor, grande amigo da família. O segredo dos invejáveis, obra de uma paranaense talentosíssima, Lígia Guerra, veio depois. Foi um presente da autora, minha conterrânea, e das incríveis amigas cariocas, Cristina, Gilma, Lúcia e Yo. A todos, obrigado.


Publicada em janeiro de 2010 na coluna SURRA DE GRAVATA da página AVASSALADORAS RIO - Todos os direitos reservados e André Ferrer

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