terça-feira, fevereiro 09, 2010

ORWELL E OS PERECÍVEIS

Escrever é um trabalho duro. Requer paciência nos estados bruto e lapidado - a paciência de quem escreve. Sem contar a fase da pré-escrita. O sacrossanto trabalho de observação, reflexão e planejamento.

Você descobre um assunto. Cruza a semana entre compromissos e contingências. Mais ou menos angustiado. Você vive. Convive. Três ou quatro rascunhos também deixam você mais ou menos feliz em plena garimpagem de tempo livre.

De repente, no sábado à tarde, a música incidental:

“Amor! Precisamos de algumas coisas. Eu gostaria que você me acompanhasse até o supermercado... Agora.”

“Tudo bem minha linda!”, eu respondo. “Nossa! Bem-ditas sejam as festas de fim de ano!”

Pareço feliz. Vou abandonar a minha crônica pela metade e, pensando melhor, não pareço, estou de fato feliz enquanto me levanto da escrivaninha e prossigo:

“As festas de fim de ano, amorzinho, esvaziam a nossa despensa e proporcionam, em menos de um mês, a repetição deste momento sublime!”

Como assim?! Isto mesmo: eu deixei a minha crônica inacabada por mais algumas horas e aceitei o convite da patroa... Não por temor ou obrigação, mas por prazer... Ao labirinto das gôndolas homem! Ao supermercado onde vagabundeiam pelo menos dois dos instintos mais básicos da raça humana: a corrida em busca de alimentos e a curiosidade.

Ano passado, dezembro, dia 24, véspera de Natal. Os olhos de águia da Carla, minha esposa, descobriram números criminosos no rótulo de várias latas de milho verde em conserva. Imediatamente, foi convocar um dos empregados da empresa que, alarmado e incrédulo, aproximou-se para constatar a irregularidade. Depois disso ele tratou de se desculpar. Encostou um carrinho vazio naquele corredor onde estávamos. Recolheu os enlatados fora do prazo de validade. Mais crédulo, impossível. Satisfeita, Carla esperou que o rapaz se afastasse, franziu a testa para mim e, deixando-me ali parado por alguns minutos, voltou à lista de compras. Na verdade, correu. Tanto tempo perdido precisava ser recompensado. Simplesmente não a vi por perto. Tinha ido para onde vão as esposas. O mesmo lugar para onde os maridos também devem ir em seguida... Com o carrinho de compras.

No meu caso, entretanto (pelo menos naquela tarde), fiquei ali por alguns minutos. Uma voz feminina, do outro lado da prateleira me despertou aquele segundo instinto básico. Eu parei. Fiquei atento porque a mulher falava com o marido. Ela parecia furiosa. Estava revoltada com alguma palavra ou atitude do herói.

“Pressa?! Você está com pressa pra fazer o quê? Jogar truco naquele boteco imundo?”

Ergui os olhos. A lacuna deixada pelas conservas facilitava que eu enxergasse o monitor de segurança fixado numa coluna do corredor vizinho. Envergonhado, o homem tentava se esconder atrás do carrinho deles. A cabeça e o dedo indicador da mulher freneticamente agitados na sua cara.

“Se pelo menos você fosse jogar um futebolzinho né. Olhe só pra você! Imagina como esta barriguinha estará depois de amanhã! Daqui a uma semana... Depois do Ano Novo! Pressa pra quê? Pra enfiar a bunda naquele banco de bar?”

Senti pena. Tratava-se, audível e visivelmente, de mais um entre milhares de casos em que as ocupações primárias e secundárias do maridão e as reivindicações matrimoniais são incompatíveis.

Fiquei feliz. No meu caso, a principal ocupação secundária*, digamos assim, que é a escrita, é muito adaptável às exigências da patroa. Fazer o rancho com ela? Onde está o problema? Em parte alguma ultimamente.

Graças a esta coluna quinzenal, eu agora fico tranquilo em momentos assim. Cada vez mais, as minhas visitas ao reino dos perecíveis e não perecíveis tornam-se legítimas aventuras behavioristas.

Todo supermercado é um laboratório. Um lugar em que se contempla o equivalente moderno das ancestrais excursões de caça.

“Eu gostaria que você me acompanhasse até o supermercado... Agora.”

“Agora.”

Enquanto íamos, lembrei-me daquele casal incrível.

Sentia-me bem. Transformei a pena que tinha daquele homem numa satisfação digna de se ter no início de um novo ano!

“Olhe só pra você!”, tinha dito a mulher. Lembro-me bem.

Depois ela se afastou, dirigindo-se para onde vão as esposas... E os maridos com os carrinhos de compra também devem ir.

Ele ficou parado. Olhou para a câmera. A mesma câmera para a qual a mulher apontou o indicador enquanto dizia:

“Olhe só pra você!”

Olhei para ele. O homem também olhava. Não para mim. Ele não me via; este curioso escondido atrás das conservas. “Tudo bem”, eu pensei. Logo será janeiro. Falta pouco para começar o Mês Nacional do Pedro Bial. Muito em breve, todas as reportagens citarão George Orwell (1903-1950) e Andy Warhol (1929-1987). Esqueçamos a seriedade! O país inteiro fará questão de perder o fio da meada por causa do mais novo time de celebridades perecíveis escalado para viver a fama de quinze em quinze minutos debaixo da vigilância do Grande Irmão. Tudo isso em janeiro.

Depois o homem ergueu a cabeça e olhou para o monitor, lá em cima, para onde eu também olhava, do outro lado da prateleira, sem ser notado. Devia ser (amadora e profissionalmente) qualquer coisa, menos escritor. “O cara não tem a mínima possibilidade de aperfeiçoar a sua paciência”, eu pensei. Sinto-me um privilegiado! A escrita enobrece a banalidade. Até mesmo esse desejo irracional de bisbilhotar o que for possível pode ser perdoado sob o respeitável balaustre de uma crônica.

Fazer o rancho com a patroa? Onde está o problema? Em parte alguma ultimamente. Agora. Sim. Agora. Sim. Agora também o supermercado integra o meu prazeroso trabalho. Se a escrita requer paciência, em contrapartida, ela proporciona os mais eficazes meios de aquisição e aperfeiçoamento desta nobre virtude. A única coisa capaz de ajudar um homem a ser onipresente e solícito e, ao mesmo tempo, produtivo é a paciência. A única ferramenta capaz de abrir caminho através das barreiras que, a cada instante do dia-a-dia, surgem para bloquear o escritor cônjuge é a paciência. Descobri, portanto, que se trata de um processo de auto-alimentação. A escrita. O convívio. O convívio. A escrita. Dizer não para uma saidinha dessas, no sábado à tarde, pode significar dizer não para uma boa história. Uma perda irreparável.

A paciência de quem escreve também pode ser a paciência de quem convive... Toda e qualquer tarefa doméstica ou familiar pode ser encarada como um excelente material literário. Basta tentar. O marido escritor é um privilegiado. Seu trabalho pode se adaptar a qualquer rotina... Mesmo entre a cozinha e a sala de estar! Depois de algum tempo, a paciência fica melhor ainda, na sua forma lapidada, e ajuda bastante a relação.

Fora do escritório, com jogo de cintura e criatividade, o marido escritor poderá vencer! E até mesmo aqueles que não escrevem... Por quê não?! Basta girar um pouquinho. Criar novos pontos de vista sobre o mesmo caso. Bem mais fácil, realmente, para quem souber inovar. Principalmente se, como eu, o sujeito for teimoso e quiser muito compartilhar a vida enquanto vive.



*Sou “primariamente” farmacêutico, é bom lembrar; uma ocupação que, no meu caso, neste momento, é primária porque sustenta a mim e a Carla, minha esposa, que não costuma reclamar tanto das minhas horas-extras na farmácia onde trabalho quando não estou escrevendo.



Publicado em janeiro de 2010 na coluna SURRA DE GRAVATA da página AVASSALADORAS RIO - Todos os direitos reservados a André Ferrer

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