domingo, julho 11, 2010

INCALCULÁVEIS DILEMAS

Nas duas últimas semanas, planejei escrever sobre a derrota do Dunga (óbvio demais) e também a respeito do intrigante encontro de Dilma Rousseff e Lily Marinho, a viúva de Roberto Marinho. “Dilma e Lily”, crônica com nome de musical da Broadway e tudo! Vejamos: o cenário, a mansão dos Marinho no Cosme Velho; o enredo, bem o enredo merece um parágrafo à parte. O próximo.

Nas eleições, aos olhos do populacho, até parecem inimigos mortais. Em “off”, reúnem-se para a nouvelle cuisine, o prosecco e aquela cara de paisagem.

A gripe que eu peguei me livrou dessa responsabilidade. Fiquei de cama. Esbocei um palavrório febril a respeito da Seleção. Joguei fora, no dia seguinte, assim que a temperatura caiu. De quanta besteira somos capazes quando um vírus invade os nossos mais íntimos humores!

O cronista é um paranóico. Tem grande chance de desenvolver esquizofrenia e transtornos obsessivos compulsivos. Modernamente, acrescento tecnomania.

O problema é a profusão de assuntos e as infinitas maneiras de que o cronista moderno dispõe para se manter atualizado.

Antigamente, o sujeito que escrevia crônicas ia atrás do cotidiano. Saía da frente da sua Olivetti. Ganhava as ruas e os bares em volta do cais do porto, que era onde as histórias mais incríveis aconteciam. Os sedentários falavam com os porteiros. Tinham como afilhado algum piá do subúrbio, herdeiro de motorista de praça; como conhecido, um representante, pelo menos, da cada classe, partido ou esfera com quem bebia ou jogava. Em todo caso, diligentes e acomodados eram unânimes quando diziam que uma história comezinha e aproveitável dificilmente lhes cairia no colo do nada e de repente.

Antes da Internet, as notícias envelheciam devagar. O quadradinho da crônica era o quê havia de mais efêmero na grande imprensa. O cronista e o repórter, ainda que a mesma pessoa, eram artífices distintos. Um era domador de feras e o outro, palhaço. Agora, tudo mudou. O cotidiano de todas as grandes cidades, afinal, só depende de um clique! Acessamos a notícia do último minuto que mais parece uma crônica e a crônica, de tão elaborada, confunde-se com uma típica reportagem.

Papéis trocados para o nosso deleite e loucura! O cronista digital é um palpiteiro com grande poder de fogo. Às vezes, reza para pegar uma gripe e se livrar de incalculáveis dilemas.

Um comentário:

Evaristo Calixto disse...

Uma refinada visão sobre os limites entre cronista e repórter! Eu, que me formei na coisa, sempre me senti por fora para escrever com propriedade a respeito. Valeu, valeu!

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