sábado, junho 26, 2010

ENTRE OS QUE TÊM ATÉ A 8ª SÉRIE NO BRASIL, 78% É DE ANALFABETOS FUNCIONAIS

Apesar das manchas, a política brasileira comete acertos. Benefícios importantes nem sempre chegam à população por caminhos diretos e aparentam, com muita frequência, existir milagrosamente ou por acaso.

No universo da política e da administração pública, determinadas ideias ou ações chegam a ter uma natureza que, sobretudo no início, beira o acidental. Num pequeno intervalo de tempo, entretanto, logo que o assunto começa a chamar a atenção, aparecem dezenas de candidatos a “pai da criança” e os cidadãos terminam, infelizmente, acreditando em algum oportunista inescrupuloso. A impressão de “magia ou milagre” se dissipa. Dá lugar ao crédito de sicrano ou beltrano por ter feito bem à população.

Ao longo da gênese de um projeto, uma variedade absurda de movimentos acontece de maneira misteriosa e imperceptível até mesmo para olhos treinados. Nesse curto espaço de tempo, nada é facilmente reconhecível. Os verdadeiros motivos desaparecem depois que o “processo de adoção” termina.

Deste modo, a razão nos mostra o quão temerário tem sido o exercício da Democracia neste país de escolaridade risível. Se nem mesmo o cidadão informado e preparado criticamente enxerga os meandros do mais novo projeto de salvação da pátria em curso, o quê dizer do cidadão despreparado? O quê afirmar sobre a massa de manobra que aceita este ou aquele espertalhão como se fosse o último gênio da política nacional, estadual ou municipal?

Na base do problema, o analfabetismo na sua mais grave e sorrateira manifestação, o chamado analfabetismo funcional, que atinge pessoas dos mais variados níveis profissionais, econômicos e sociais, caracterizado, essencialmente, pela dificuldade na interpretação de textos que exijam capacidade analítica mínima (o dado acima, no título, entre outros do ano de 2009, o leitor encontra na página do Instituto Paulo Montenegro, referentes ao INAF, Indicador de Analfabetismo Funcional). Tais pessoas, apesar de alfabetizadas “formalmente”, não conseguem apreender o significado de textos bastante simples como cartas, manuais de instrução, rótulos de produtos industrializados, precrições médicas, entre muitos outros. E o quê dizer dos contratos? As notícias e os editoriais de jornal? As resenhas críticas? Os panfletos? De quê maneira o analfabeto funcional pode construir a própria opinião sobre determinado assunto?

Nos últimos oito anos, a educação sofreu mudanças que, como é típico do atual governo federal, em nada revolucionam a estrutura, ficam na superfície, isto é, ao alcance de qualquer olho simplório, prestando-se apenas ao marketing eleitoral. A mesma filosofia populista e assistencialista que contaminava as discussões e atitudes políticas no campo das ações sociais passou, de uns anos para cá, a contaminar também as ações relacionadas so problema da educação. Também neste campo, e de maneira descaradamente sensacionalista, oferta-se a esmola que nada ensina a uma geração que sequer terá chance de aprender a aprender.

Num país carente de massa crítica, a cultura, naturalmente, padece. Quanto, em todo o Brasil, os municípios investem na promoção da cultura? Salvo em algumas poucas ilhas de excelência, muito pouco. Em geral, a falta de estrutura humana é alarmante nos grotões do país onde a escassez de RH gera, inevitavelmente, a falta de estrutura física.

No Brasil do Prouni, do Sisu e das cotas, 93 mil escolas de ensino fundamental simplesmente não têm biblioteca (Censo da Educação Básica de 2008). Obras como a construção ou reforma de quadras esportivas ganham disparado em comparação aos espaços culturais e aquilo que resta de “outras eras” termina, invariavelmente, em poder do setor privado, tendo destinos que se distanciam bastante da educação, da cultura ou mesmo do simples entretenimento da população.

Em alguns casos, quando o quê interessa é a especulação imobiliária, o espaço se transforma num amontoado de entulho. Em outros, quando as instalações se encontram em bom estado, a estrutura dá lugar a um tipo de lavanderia onde o que se lava é a culpa dos ingênuos, a grana dos espertos e o cérebro dos fracos de opinião. Nas últimas décadas, em centenas de municípios brasileiros, teatros e cinemas passaram a abrigar igrejas que mais parecem franquias do esperto negócio do pastor Jim Jones. Isso acontece, mais uma vez, porque os gestores municipais preferem ficar ausentes quando a questão é a cultura. Salvo, é claro, naqueles casos misteriosos, em que acontece um milagre e algum “político sortudo” se vê na hora e no lugar certos para assumir a paternidade da obra.

Este ano, existe uma infinidade de ideias e ações aparentemente órfãs que o eleitor precisa enxergar e analisar cuidadosamente. É frustrante saber que conselhos assim pouco adiantam. A massa desmiolada e despreparada sempre põe tudo a perder, completamente encantada pelos oportunistas que assomam do caos político e tomam a forma de verdadeiros heróis. Infelizmente, a ilusão de que basta saber assinar o nome e dominar as quatro operações matemáticas para ser dono de si atira milhões de pessoas na Idade Média, no tempo em que não se usava a razão nem a Ciência para interpretar os fenômenos naturais e sociais.

2 comentários:

Evaristo Calixto disse...

André, essa questão do analfabetismo funcional é algo importante de se ser abordado. É um outro nível de debate que propõe, em que se atenta ao efeito do que se tem investido na Educação. É bem frequente mesmo a gente ver a infra-estrutura de escolas serem reformadas ou ampliadas, como quadras poliesportivas, por exemplo. Porém, no dia a dia, comportamentos e assuntos dos escolares parecem fazer jus a um verniz de cultura. Apenas. É algo que merece atenção, com certeza. Daí, entraria-se em outra questão, que é a da cultura midiática versus cultura letrada - em que a primeira tem vantagem insofismável sobre a segunda. O buraco, sem dúvida, é bem mais em cima... Parabéns pelo texto, e continue. Se não me engano, "escassez" tem essa grafia. Abraço!

André Ferrer disse...

Valeu o comentário!

Escassez. É claro! É correto! É insofismável!

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